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Alocução do Ministro das Relações Exteriores, Embaixador Carlos Alberto Franco França, em videoconferência organizada pela Associação PanAmazônia (10/05/2020)

Muito obrigado, Belisário [Arce, Diretor-Executivo da Associação PanAmazônia]. Muito obrigado a todos que intervieram. 

Para mim, é um privilégio estar aqui com os senhores. Só de escutá-los na apresentação já aprendi muito sobre a diversidade dos interesses que estão aqui representados; sobre o patriotismo, também, dos senhores – esse patriotismo direto, não só do sentimento, claro, mas do exercício diário dos senhores; do trabalho. Eu queria, já, deixar a minha admiração por quem está realmente vivendo a Amazônia, fazendo a Amazônia, fazendo essa região maravilhosa do Brasil. Toda a minha admiração, todo o meu respeito ilimitado pelos senhores, por quem enfrenta toda a beleza, mas, também, todos os desafios da Amazônia.

Fico feliz também de ver, por algumas apresentações anteriores, que a Amazônia é um pedaço do Rio Grande, já que há tantos gaúchos, aí. Eu também, como gaúcho exilado – nasci lá e passei toda a vida em Brasília –, queria solidarizar-me tanto com todas as pessoas nascidas aí, quanto com os que vieram de outros lugares do Brasil. Isso também é um símbolo muito importante da integração verdadeira do Brasil, que é aquilo que, entre tantas coisas, nós estamos recuperando nesse governo.

Essa ideia da integração ficou um pouco demonizada durante muito tempo. Por quê? Porque nós aceitamos padrões de pensamentos alheios, aceitamos clichês, aceitamos ideias pré-concebidas sobre nós mesmos. Não só em relação à Amazônia, mas acho que na Amazônia, na parte de meio ambiente, isso foi muito premente, sem que ninguém notasse, sem que houvesse nenhuma programação. Ao longo de duas, três ou quatro décadas, isso se foi enfronhando na maneira que nós mesmos, brasileiros, vemos a questão ambiental e vemos a Amazônia. Acho que nós começamos a pensar a Amazônia de fora para dentro, em muitos sentidos. 

E acho que isso é um dos problemas – sem nenhum ânimo de crítica – que nós diagnosticamos aqui no Itamaraty, ou parte de um problema: de nos vermos muito mais de fora para dentro do que de dentro para fora; de querer muito mais estar de bem com, digamos, as elites dos organismos internacionais do que realmente representando e levando conosco os interesses do povo brasileiro, do produtor, da nossa população. Isso é uma inversão que parece óbvia, mas que, sub-repticiamente, foi tomando conta da mentalidade, e que precisamos inverter e, Graças a Deus, acho que estamos conseguindo inverter. 

Esse é o primeiro passo: sabermos quem somos. E eu sempre digo que nós não estamos aqui para sermos escritório de representação da ONU no Brasil – para ser um pouco direto –; estamos aqui para sermos parte desse projeto de Brasil no qual a Amazônia, agora com toda a atenção que o Presidente Bolsonaro dá para essa questão e para a questão da integração, adquire um papel fundamental.

Isso se consubstancia, entre outras coisas, no trabalho que a querida amiga e colega Maria Deize [Camilo Jorge] está fazendo aí em Manaus. Ela foi designada, já na nossa gestão, para chefiar o Escritório de Representação do Itamaraty na região Norte; escritório que, se não me engano, já estava vazio há um bom tempo e que sinaliza (de novo, não quero aqui ficar criticando, anteriormente muita coisa boa foi feita) que havia uma certa carência de atenção a essa conexão do Brasil com o Itamaraty, do Brasil também, mas do Itamaraty com o trabalho que precisamos fazer dentro do Brasil – na Amazônia, muito especificamente. Então, o trabalho do Escritório é fundamental e, agora, ouvindo os senhores, quero dar todo o apoio aqui e agradecer muito a interlocução que os senhores têm com o Escritório em Manaus.

Eu acho que a Amazônia virou um ponto onde questões de política interna estão afetando, muitas vezes negativamente, a nossa política externa e os nossos negócios, os nossos interesses comerciais e de investimentos. Eu acho que (falando muito francamente; alguns terão, talvez, uma análise diferente da minha) fica muito claro que há uma agenda para alavancar esses preconceitos internacionais existentes sobre o Brasil e sobre a Amazônia para ganhos políticos internos, e para travar todo um programa de governo que nós estamos implementando. Eu acho que, infelizmente, algumas correntes se deram conta de que é um tema onde você pode usar esses preconceitos internacionais para atrasar os nossos projetos aqui e nos criar problemas. 

Isso se vale de uma mudança que tem existido na Europa, sobretudo; nos Estados Unidos também – digamos, no que se chamava de Primeiro Mundo. E isso tem a ver com esse processo interno. Eu acho que a população brasileira aderiu plenamente ao projeto de transformação – mesmo que com dúvidas, aqui e ali, mas é possível sentir isso nas ruas –; houve uma adesão ao projeto que o Presidente Bolsonaro trouxe. Então, como aqueles que querem enfrentar esse projeto podem fazê-lo? Não diretamente, porque é visível que há esse apoio popular. Então, eles recorrem à questão ambiental.

No Primeiro Mundo, sobretudo na Europa, nós podemos fazer a seguinte analogia: o ambientalismo virou um instrumento daquelas correntes que não podem contestar diretamente a democracia liberal, um certo modelo econômico e político que, evidentemente, é um modelo reconhecido como o melhor, o mais eficiente, tanto em termos de economia quanto em preservação das liberdades. Ao longo de quarenta anos, a partir de finalidades muito nobres, muito aceitáveis, muito mobilizadoras e legítimas, foi surgindo, digamos, um aproveitamento disso que nós chamamos, por falta de outro nome, de ambientalismo, que é a ideologização disso para tentar controlar o processo de crescimento e contestar, aqui e ali, chegando ao ponto do alarmismo: “Olha, o mundo vai acabar. Nós temos que dar todo o poder para o Estado, para regular toda a vida dos cidadãos, senão o mundo vai acabar”. É isso que nós vemos acontecendo.

Na Europa, existe esse caldo de cultura muito favorável à preocupação ambiental exacerbada que, como eu digo, tem uma raiz (eu não quero negar) muito válida, como aqui dentro, de sustentabilidade e tudo isso. Eu não digo nem que haja uma conspiração. Foi uma coisa bem natural que foi acontecendo. Mas existe essa instrumentalização. Então, quando você junta uma agenda interna, que quer instrumentalizar o meio ambiente, com uma agenda que já está acostumada com isso no Primeiro Mundo, realmente surge uma força muito grande de choque em relação ao Brasil, e nós viramos, digamos, esse vilão do meio ambiente que estão querendo pintar. 

O que é frustrante, porque é justamente no momento em que nós estamos convergindo e nos alinhando com esses grandes princípios da democracia liberal, ou seja, a economia de mercado eficiente, competitiva; e com uma democracia realmente funcional e funcionando, como pede a nossa Constituição: “todo o poder emana do povo”. Nós realmente queremos uma democracia profunda, com a participação das pessoas – que é o que está acontecendo no Brasil. Eu acho que, hoje, não há nenhuma democracia tão vibrante quanto a brasileira. E também estamos querendo transformar o Brasil, finalmente, em uma economia de mercado, e não em aquela economia híbrida que nós conhecemos. Estamos querendo entrar na OCDE, por exemplo, que é a epítome desse modelo, entre outras iniciativas. E apesar disso, nós somos vistos de uma outra maneira, o que é muito frustrante, porque nós estamos fazendo justamente aquilo que os europeus pregam há tanto tempo: democracia, economia aberta. Assim como os Estados Unidos.

Em relação aos Estados Unidos, um parêntese: não é ter uma opção por um lado ou por outro, mas acho que, visivelmente, a administração Trump e o governo dele, os republicanos, entenderam melhor esse novo Brasil, enquanto acho que o lado democrata, e Joe Biden, como candidato, ainda não o fizeram. Então, as pessoas vêm nos falar se estamos preocupados com isso: não. Mas será necessário, e tenho certeza de que isso acontecerá nos Estados Unidos caso haja uma vitória dos democratas, que eles entendam esse Brasil, e não o ver através dos estereótipos.

Esse é o panorama em que estamos atuando. É um panorama desafiador, porque existe uma série de preconceitos que estão sendo usados, deliberadamente ou não (e sejam quais forem os interesses que estão por trás), contra esse grande projeto de transformação nacional que nós temos, não apenas para a Amazônia. Mas a Amazônia realmente seria, como alguém falou aqui, uma grande solução, para nós e para o mundo, e acaba sendo vista como se fosse um problema; o que, absolutamente, não é.

Muitas pessoas, infelizmente, querem segurar o Brasil segurando a Amazônia, e querem segurar a Amazônia segurando o Brasil. Querem nos travar. Isso, claro, contrastando com a realidade, que nós conhecemos, mas que o mundo insiste em não conhecer, que é a realidade da região, quais são os desafios, qual é a qualidade das nossas legislações ambientais, qual o grau de preservação (sem paralelo a outros lugares do mundo) em termos de floresta. Temos toda uma regulação que, em muitos casos, nós sabemos que é excessiva, mas que, de certa forma, mesmo fazendo a desburocratização que precisa ser feita, continua sendo uma legislação extremamente avançada por quaisquer padrões. Se mostrássemos essa legislação dizendo que é de um país X, todos diriam: “Olha só, que legislação boa”. Ninguém falaria outra coisa. Mas quando se trata do Brasil, as pessoas falam: “Não, olha só, que horror isso aqui, estão destruindo”. É claro que existe uma politização quando nós vemos isso. Acho que podíamos fazer aquele teste que fazem com vinhos, para saber qual vinho é o melhor: colocar uma venda e mostrar apenas o que é a política ambiental de um determinado país X e dizer o que é, sem dizer que é o Brasil, porque, hoje, o Brasil liga uma chave em muitos setores que não tem a ver com a realidade.

A realidade é, infelizmente, hoje, a última coisa em que se pensa, em muitos casos. A imprensa, não só no Brasil, gosta de manchete, e a manchete é: “estão destruindo a Amazônia”. Isso é o que dá manchete. “O Brasil está bem na preservação”, ninguém vai comprar no jornal. Hoje, a competição pelos cliques é uma coisa gigantesca em qualquer meio de comunicação; seja nas redes, seja nos jornais tradicionais, que são ainda mais fortes na Europa do que aqui. A competição é gigantesca. Então, compete-se com a criação de uma imagem e, muitas vezes, usando imagens distorcidas, chegando ao ponto da girafa na Amazônia.

Isso é uma decorrência dessa civilização de comunicação permanente que nós estamos vivendo, na qual as pessoas também não têm tempo e não querem ler nada além da manchete. Esse é outro problema. Nós nos pegamos fazendo isso: a manchete está aqui, mas quantas vezes ela é diferente do conteúdo? E quantas vezes o próprio conteúdo já é ruim, mas a manchete, então? Isso, infelizmente, é a realidade de hoje.

Uma pessoa na Finlândia lê alguma coisa e já acha que entendeu tudo de Amazônia; enquanto nós, que estamos vivendo aqui, nesse país, os anos todos que estamos vivendo, muitas vezes temos dificuldade de entender (refiro-me aos não amazônidas). O que dirá alguém que leu no jornal, ou aprendeu na escola duas ou três coisas, viu duas ou três imagens. 

Então, o que pode ser feito? Eu queria justamente pedir ideias aqui para os senhores, mais do que passá-las, porque, certamente, os senhores terão ideias melhores do que as nossas. Mas nós estamos trabalhando muito intensamente, como os senhores sabem, no Conselho da Amazônia e, distintamente, nos vários Ministérios que estão ligados de alguma maneira a essa questão; entre eles, claro, o Itamaraty. No nosso caso, há uma coordenação muito estreita com o Ministério do Meio Ambiente, com o Ministro Ricardo Salles, especialmente, que eu admiro imensamente pelo tipo de pressão que sofre e pela qualidade excepcional do seu trabalho diante dessa pressão, pela sua coragem, pela sua resiliência e patriotismo também. 

Então, estamos trabalhando em várias vertentes, mas é algo que está se criando também, porque o próprio Conselho da Amazônia já existia, mas não tinha sido convocado; agora ele foi convocado e passou a ser presidido pelo Vice-Presidente, com a capacidade de atuação que tem hoje, com o envolvimento das Forças Armadas, que não existia também. São coisas que não são vistas. Há uma mobilização muito maior do que a que existia anteriormente.

Acho que são três vertentes básicas em que podemos e precisamos trabalhar: uma delas é a vertente da apresentação técnica e científica, digamos, da realidade amazônica e da realidade ambiental brasileira. Nós temos que criar cada vez mais os espaços para que as pessoas, seja o governo, seja a iniciativa privada, sejam ONGs, seja a sociedade civil na Europa e em todo mundo, tenham mais dados sobre a Amazônia, vejam os mapas; vejam onde é a produção agrícola, onde não é; vejam a questão da produtividade agrícola. As pessoas acham que estamos aumentando a produção desmatando. Claro que não. Os dados de pastagem, pela informação que tenho, nos últimos dez anos, diminuíram no Brasil, enquanto a produção e a quantidade do rebanho aumentaram, e ninguém lá fora sabe disso. 

E ninguém vai acreditar. Esse é outro problema. Você pode mostrar, mas é aquela coisa do viés de confirmação: quando nós formamos uma realidade na cabeça, qualquer informação que a confirma, nós incorporamos; qualquer informação que a desmente, nós tendemos a dispensar. Isso é um fenômeno do funcionamento do cérebro e, hoje em dia, é muito reforçada pela mídia.

Mas é preciso que haja esses espaços, para que as pessoas comecem a se acostumar mais a ver os gráficos, a ver a realidade; e de uma maneira muito visual. Eu acho, digamos, que tem que ter essa perspectiva técnica, tem que ser um diálogo entre quem entende dos dois lados. Por exemplo, surgiu recentemente um estudo de uma instituição francesa, encomendado, acho que, pelo governo francês dizendo que o acordo MERCOSUL-União Europeia, quando implementado (e tenho certeza de que vai ser), vai contribuir contra o desmatamento e esse tipo de coisa. Há várias falhas que nós identificamos só em uma primeira leitura. Por um lado (nós estávamos conversando sobre isso no Itamaraty) isso é bom, porque eles colocaram argumentos que estão no papel, não são essa coisa vaga; fica mais fácil de desmentirmos e mostrarmos por que estão errados. Então, esse tipo de debate é muito bom; esse tipo de debate, quando vem com o papel, é ótimo, porque nós queremos achar os espaços para sentar e mostrar o que é verdade e o que não é.

Uma segunda vertente que me chama muito atenção, claro, é o tema da imagem; que não é exatamente a mesma coisa que os dados; é um trabalho mais técnico. A questão da imagem é algo que, obviamente, tem que ser trabalhado. Nós estamos correndo atrás do prejuízo, realmente, porque, na verdade, quatro décadas, como eu disse, de desinformação crescente sobre os temas ambientais nos países avançados e ao redor do mundo é difícil. É uma coisa muito capilarizada, que começa no jardim de infância, com a criança na Bélgica já aprendendo que o Brasil tem uma política ambiental indigenista de destruição; então, a pessoa cresceu desde os cinco anos com isso. É muito difícil trabalhar a imagem. Não é algo que a pessoa vai ver no primeiro dia e dizer: “Ah não, eu estava errado por toda minha vida; tudo que meus pais, professores e amigos me disseram estava errado”. Não. É difícil. Mas é necessário. Porque também tem esse lado inconsciente. As pessoas vão incorporando fotos e imagens de queimadas, de bichos morrendo, então precisam ter, também, imagens reais, da floresta de pé, o lado positivo, para que aquilo também entre no lado inconsciente, digamos, da psique, e comece a haver pelo menos um contraste. 

Finalmente, uma vertente que acho que é fundamental para os senhores (as outras também são importantes, mas acho que essa é fundamental), que é o lado do investimento. Cada vez mais, nós estamos convencidos de que é fundamental convencer todos, ao redor do mundo, que se interessam pela questão amazônica de que não basta falar de proteção; que é necessário falar do investimento, da geração de emprego, da racionalidade econômica, do soberano, responsável, sustentável da Amazônia. E aí vêm, claro, a questão produtiva (como se geram esses empregos), a questão da infraestrutura e a questão do financiamento.

Quero mencionar também que eu tenho procurado, cada vez mais, ter uma agenda muito presente na Amazônia. Recentemente, eu estive duas vezes em Roraima (claro que tem a dimensão de Venezuela, Operação Acolhida, mas tem também todo o nosso diálogo em relação aos desafios de Roraima); e semana passada estive brevemente em Rondônia e depois no Acre. Foi uma visita muito interessante. Cada vez mais, eu e toda a minha equipe nos damos conta de que é fundamental essa presença na região para entender os desafios e ver como podemos ajudar a transformar isso em mudanças efetivas. 

E a infraestrutura é fundamental. Temos três desafios nesses três estados que eu mencionei. Por exemplo, em Roraima, a ligação com a Guiana, de finalmente ter uma estrada asfaltada que permita ir de Roraima até o Porto de Georgetown, em um momento, agora, em que a Guiana vai ter um crescimento extraordinário com petróleo e abrir uma avenida de investimentos sem precedentes. Eu acho que isso beneficiaria não só Roraima, mas todo o Norte e, muito especialmente, o Amazonas, por conta da facilidade maior de conexão ali. No caso do Acre, a ligação entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru, chegando ao Pacífico depois, muito mais fácil do que a ligação que existe hoje pelo Sul. Estamos trabalhando nisso. O desafio maior é do lado peruano; portanto, o envolvimento do Itamaraty aí é fundamental. E em Rondônia, a ligação com a Bolívia, tanto pela fronteira em Guajará-Mirim quanto em Costa Marques. 

E eu tenho conversado muito, sobretudo, com parlamentares da região, desses estados e de outros; há uma mobilização imensa em torno desses projetos e acho que as bancadas do Norte são absolutamente fundamentais para ajudar a que eles avancem. No caso do Acre, só para citar, essa viagem eu fiz junto com os Senadores Marcio Bittar e Sérgio Petecão; foi fundamental, para mim, ter essa visão e essa conexão com as bancadas para que as coisas aconteçam. Já estamos embarcados nesse desafio, mas precisamos sistematizar isso. 

E na questão do financiamento, há muitas ideias estão surgindo. Uma iniciativa nossa, aqui do Itamaraty, desde o ano passado, em coordenação com o Ministério do Meio Ambiente, que estamos trabalhando com o BID, é de um fundo específico para a Amazônia (que aí não será só para o Brasil, será para os outros países também da região). Já existia, mas vai ser muito reforçado, com uma cara nova, para tentar, justamente, carregar mais recursos dessas correntes que se interessam pelo meio ambiente, legitimamente, no Primeiro Mundo, para o investimento produtivo sustentável na Amazônia. Ou seja, tentar mudar a lógica da ONG para a lógica da produção. Porque hoje o que acontece é que os governos interessados tendem a pegar o dinheiro e dar para a ONG; em alguns casos, há bons projetos; em outros casos, não sabemos, por que tem esse problema da falta de transparência. Não é dizer que não vai mais ter ONG, mas não pode ficar só nisso. Acho que teria um rendimento muito maior – claro, teríamos que ter até estudos para mostrar isso – colocar esses recursos em fundos, criando empregos para as pessoas terem sua vida digna e não dependerem de outros tipos de atividades (inclusive atividades ilegais). 

Também é preciso acabar com o preconceito da mineração, que é um grande desafio. A mineração, realmente, sofre de preconceito imenso. O Presidente Bolsonaro não só não compartilha, mas faz de tudo para acabar com esse tipo de negatividade em relação à mineração. É uma atividade que, justamente, quanto mais legalizada, melhor, mais sustentável, cria benefícios com um impacto ambiental mínimo, se tudo for bem administrado, e é isso que nós queremos. Aqui, nós lutamos contra imagens totalmente irracionais; acham que, na mineração, você vai acabar com tudo e prejudicar os indígenas (no caso das terras indígenas). É uma dessas lutas que são de longo prazo, porque dependem de uma mudança de mentalidade.

Enfim, só para dar uma ideia do universo com o qual nós estamos trabalhando. Os senhores conhecem melhor do que eu, mas nós estamos tentando fazer essas mudanças onde é possível; sobretudo, pensando na questão de mudança de paradigma, de deixar de demonizar o investimento na Amazônia, como se fosse possível ter uma região deserta de pessoas. O que está sempre associado à questão, como foi dito no começo, da contestação do nosso projeto, e também da contestação da soberania. Por isso nós falamos tanto em soberania. Porque é um conceito que foi demonizado, não só no Brasil, como se os países não tivessem mais capacidade de se governar. Isso, no fundo, é o que está por trás: você sempre precisar de burocratas internacionais ditando quais são as políticas de cada país. Se nós não cuidarmos, realmente vamos por essa linha. 

Fazendo outro parêntese, hoje essa discussão é muito urgente por causa da COVID, da pandemia, de toda a problemática que surgiu, com a atuação, a nosso ver, bastante deficiente da OMS, e, no entanto, muita gente ao redor do mundo está dizendo que a pandemia mostrou que nós precisamos de mais força para as instituições multilaterais, que precisa reforçar a OMS. Não sei. Pode até argumentar, mas eu acho que mostra o contrário. Mostra que existem problemas com essa ideia de que você pode gerir o mundo a partir de uma entidade internacional sediada em Genebra. No caso da saúde, evidentemente, está se provando cada dia que não é assim, porque essa ideia de que todos os países têm que ter o mesmo tipo de política está se mostrando inadequada; os países que seguiram nessa linha estão tendo problemas maiores do que os países que tiveram enfoques mais inteligentes, digamos, no sentido de mais adaptados à sua realidade.

Acho que isso é importante para mostrar como existe esse viés de que tudo tem que ser decidido lá fora, e também essa ideia, que afeta muito o meio ambiente, de que um tema global tem que ter soluções globais. Isso é uma falácia. Isso é um clichê. O problema global, está bem, afeta todo mundo, mas, muitas vezes, um problema é mais bem resolvido na base, mais bem resolvido a partir de soluções diferenciadas de acordo com realidades diferenciadas. Por que tudo tem que ter uma solução global? Acho que isso é que é ideológico – partindo de uma frase, de um adjetivo que você aplica e acha que está sendo muito bacana dizendo: “Problema global, solução global”. Isso é um adjetivo de quem não conhece a realidade. Nós estamos um pouco mais na realidade.

Em relação à pandemia, nos países africanos, por exemplo, muitos deles aplicaram lockdown total em sociedades que são, até mais que a nossa, dependentes de economia informal, e aplicaram lockdown total; houve uma tragédia econômica. Quando você vai ver o número de óbitos: em um país quinze, no outro cinquenta. Então, visivelmente, é um problema que não afeta tanto a África em termos de saúde, mas, no entanto, esse dogma de que tinha que haver uma solução global provocou uma devastação econômica imensa.

No nosso caso, por sorte, com todos os problemas que houve, todos sabem que não dependeu do Governo Federal a questão da determinação das medidas, mas acho que, pelas ações do nosso Governo Federal, nós estamos com uma das melhores performances econômicas (ou uma das menos ruins, se vocês quiserem); realmente, entre os países do G20, hoje, estamos entre os três ou quatro países que estão com a melhor performance em termos de recuperação econômica. Isso para dizer que alguma coisa nós estamos fazendo certo aqui no Brasil. 

Contrariamente à imagem. Aí vem, de novo, a questão da imagem: a partir de uma agenda de política doméstica, espalharam, pelo mundo, que o Presidente Bolsonaro foi o pior líder em termos de COVID. Os dados não mostram isso; assim como não mostram a devastação da Amazônia; como não mostram, muitas vezes, a necessidade de uma solução única para o tema da COVID. Quer dizer, as pessoas não gostam de dados, não gostam de realidade, gostam de discurso político.

Eu já falei mais do que eu pretendia, mas, só para terminar, nessa questão dos investimentos, estamos procurando cada vez mais os diálogos, os canais de conversa para estimular isso. Falei do BID, mas, também, bilateralmente, com vários países; isso é, cada vez mais, algo que atrai investimento. Eu acho que os países, quando falam bilateralmente, a racionalidade, às vezes, se impõe muito mais do que através dos organismos internacionais. 

Obviamente, com os Estados Unidos nós estamos conversando sobre isso. Nos próximos dias, devemos lançar uma declaração conjunta para criar uma base para o trabalho ambiental [Diálogo Quadro Brasil-EUA sobre Meio Ambiente]. Vamos reunir iniciativas que já existem, na questão de biodiversidade, por exemplo, mas vamos dar um foco político muito mais claro. E aí, claro, vai depender da eleição americana se vamos poder levar mais adiante, mas nós vamos mostrar que é totalmente possível e desejável ter uma agenda ambiental forte com os Estados Unidos. É um tema muito identificado com os europeus, mas os americanos, justamente, têm uma visão muito mais semelhante à nossa, de que você tem que trabalhar muito mais com a questão do investimento do que com a questão puramente da proteção. Então, muito avanço com os Estados Unidos.

Também, por exemplo, hoje o Presidente conversou por telefone com o Presidente da Coreia que, espontaneamente, mencionou que quer trabalhar mais conosco em investimentos sustentáveis na Amazônia. Temos ótimas perspectivas com os países do Golfo, principalmente com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, que têm também uma visão muito mais, digamos, próxima da realidade das coisas e favorável a um investimento produtivo como forma de política ambiental, inclusive. Israel também é um país que tem toda uma tecnologia que, em muitos casos, nós podemos carregar muito mais para investimentos produtivos para a Amazônia. Enfim, há uma coleção de opções muito grande que nós estamos abrindo.

Basicamente, é isso. Eu queria, sobretudo, ouvi-los e continuar essa conversa. Obrigado. 

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