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Cumprimentos de final de ano do Ministro das Relações Exteriores, Embaixador Ernesto Araújo, ao corpo diplomático (17/12/2020)*

Boa noite a todos.

É uma imensa alegria para Maria Eduarda, para mim, para todos daqui da casa, receber a todos vocês, embaixadores, membros do corpo diplomático e colegas do Itamaraty. Muito obrigado por terem vindo, muito obrigado por compartilhar conosco este momento de fim de ano. 

Eu queria começar dizendo que tenho notado, nesse tempo de pandemia, que o papel dos embaixadores e dos diplomatas em posto é ainda mais reforçado e ainda mais demandado. Diante da dificuldade ou impossibilidade de viagens, acho que retornamos um pouco à época da diplomacia clássica, em que os ministros, outras autoridades das capitais, não viajavam tanto, e os embaixadores, portanto, eram realmente a figura, a voz do seu país no outro país. Acho que isso é interessante; é fundamental, para nós, retomarmos esse espírito. E eu queria dizer que, para mim, tem sido absolutamente fundamental a convivência com todos os senhores embaixadores e diplomatas acreditados em Brasília. 

Antes da pandemia, muito em função da quantidade de viagens no ano passado, em 2019, eu pessoalmente não pude ter tanta interação quanto gostaria com o corpo diplomático em Brasília, e esse ano foi também uma feliz circunstância que tivemos mais tempo hábil para esse convívio, esses contatos, e tenho plena convicção de que o manteremos com grande prioridade no ano que vem, através da nossa interação direta, da interação dos senhores com todos os departamentos, com as secretarias do Itamaraty. Isso é absolutamente vital para nós.

Queria também agradecer o esforço que todos os diplomatas estrangeiros têm feito para entender o Brasil, para entender o momento de transformação que o Brasil vive, o projeto do nosso governo, o projeto de transformação que o Presidente Jair Bolsonaro traz e que mantém, com grande coragem, com grande denodo, e os desafios que esse projeto enfrenta. 

Esse projeto depara-se com as dificuldades normais de um país democrático, onde tudo é mais custoso, trabalhoso. Depara-se com heranças complicadas que recebemos de outras administrações, muitas vezes heranças até seculares de maneiras de se fazer as coisas no Brasil; uma estrutura social, política, econômica que, de alguma maneira, perdurou durante, talvez, 500 anos, certamente durante várias décadas, e que tantos problemas causou ao Brasil. 

Acho que é fundamental o esforço dos senhores de entenderem essa história recente e mais remota de onde vem o Brasil e, portanto, o tamanho da montanha que nós estamos tentando escalar e que certamente conseguiremos escalar até chegar ao Brasil que os brasileiros querem e que, eu tenho certeza, será um Brasil muito mais capaz de contribuir para o mundo que todos os seres humanos querem.

O Brasil tem uma tradição de ser visto como um país da paz, uma diplomacia da criação de consenso, e um país de apoio à democracia. Certamente isso é muito bom, mas a paz não pode significar ignorar as ameaças. Então, nós temos trabalhado para, efetivamente, garantir o primado da paz, começando pela nossa região, e em outras regiões também. Isso exige reconhecer as ameaças reais e enfrentá-las: as ameaças, sobretudo, do crime organizado aqui na nossa região, em suas conexões múltiplas, em suas conexões com várias formas de ilícitos, e em suas conexões políticas; e, também, com outras regiões.

Nesse enfrentamento, nós, Brasil, damos uma contribuição para a paz, além da segurança, é claro, dos nossos próprios cidadãos. A criação e a geração de consensos nos planos internacionais também não podem significar simplesmente um abster-se e um retirar-se dos problemas, um não ter opinião, um não querer desagradar, um não querer se posicionar. Nós, claro, sempre que possível, gostamos de contribuir para a aproximação entre terceiros, mas isso não pode significar que nós não tenhamos posição. Hoje, o Brasil procura construir sua presença internacional, nos organismos e nas relações bilaterais, através da sua identidade e através daquilo que nós queremos para o Brasil, das nossas convicções, das nossas ideias e dos sentimentos do povo brasileiro. 

Acho que a paz e o consenso não se constroem de maneira sólida ao se renunciar às suas convicções ou ao se abandonar a sua identidade. A paz duradoura – mais difícil, como é mais difícil o nosso trabalho num país democrático – só se constrói a partir das identidades e de uma conexão real entre as pessoas, sempre dinâmica, sempre sujeita às contradições que são do ser humano, que são da vida; portanto, nunca será perfeita. Mas o Brasil contribui para a paz e para o consenso sendo o que nós somos. O Brasil procura contribuir para um mundo mais democrático não ignorando os desafios que se colocam à consecução desse mundo mais democrático, tanto no interior das sociedades, quanto entre os países, a partir da nossa convicção do primado da liberdade e do primado da verdade.

Eu queria falar rapidamente desse tema da verdade. A crise mundial que nós estamos vivendo por causa da pandemia da COVID-19 não pode ser uma crise da verdade, não pode ter como vítima a verdade. Eu já tenho dito – aqueles que já me ouviram dizer isso, permitam--me repetir –, a pandemia da COVID-19 não é simplesmente uma questão epidemiológica; é também uma questão epistemológica; é também um desafio para a nossa maneira de entender e interagir com a realidade, aprender a conhecer a realidade, que não é uma coisa óbvia.

Hoje, infelizmente, a luz da razão muitas vezes passa por um prisma distorcido de interesses escusos, de interesses da política no sentido negativo que esse termo pode ter. Para muitas pessoas, infelizmente, o critério de eficácia de um determinado tratamento para COVID-19, ou de uma determinada medida, é, simplesmente, um critério político, e não pode ser assim. Nós, no nosso governo, temos sempre, com a liderança do Presidente Bolsonaro, procurado proporcionar aos brasileiros a opção de tratamentos, toda a questão que os senhores acompanharam, da hidroxicloroquina, que eu acho que tem salvado vidas, e que, infelizmente, algumas pessoas se recusam a reconhecer por razões políticas. 

Temos procurado proporcionar, como os senhores sabem, a sobrevivência de tantos brasileiros, de dezenas de milhões de brasileiros – que se viram de repente privados da sua capacidade, da sua possibilidade de ganhar a vida nos seus empregos informais –, através do auxílio emergencial. Temos, a partir do governo federal, procurado suprir os estados e os municípios com recursos para instalações médicas, instalações hospitalares, equipamentos para o enfrentamento direto da COVID-19. 

Infelizmente, o que vemos é, muitas vezes, uma distorção de tudo isso através da narrativa. Temos, às vezes, a impressão de que quem controla a narrativa controla o poder. Não queremos viver num mundo de narrativas; queremos viver num mundo de realidades. Não pode ser um mundo de narrativas. Nós temos que viver num mundo onde o ser humano seja capaz de reconhecer os fatos, de interagir com as contradições dos fatos e da realidade.

O papel dos senhores e de todos nós, diplomatas, é fundamental para isso, tenho certeza, para que possamos intercambiar, entre nós, a realidade dos fatos, comparar os fatos com as ideias, e sempre abertos para que a evolução das ideias corresponda à evolução dos fatos. Claro que isso é mais fácil falar do que fazer. 

Esse é o desafio humano desde a Pré-História, porque a nossa razão tem os seus limites e ela não nos permite ter um retrato exato da realidade automaticamente. Dá mais trabalho entender e ver os diferentes pontos de vista, sempre de maneira que possa ser corrigida, sempre de maneira provisória. Isso dá mais trabalho do que simplesmente pegar uma narrativa pronta e atirar uma pedra aqui ou atirar uma pedra ali. 

Precisamos trabalhar a partir da realidade. Temos esse compromisso, e eu acho que esse é o compromisso dos diplomatas para bem servir aos seus países, seja no tema da saúde, seja no tema do meio ambiente, também hoje tão presente, e em tantos outros. Precisamos do livre fluxo de informações, de ideias, através do mundo. Precisamos da liberdade. 

A ciência precisa da liberdade. Fala-se tanto também em ciência. A ciência só existe se houver o livre fluxo de informações, o livre fluxo de ideias, a livre análise, a livre disponibilidade dos dados sem distorção, sem uma narrativa política por trás dos fatos. 

A saúde precisa da liberdade. Precisa dessa liberdade de identificar qual é o melhor tratamento, qual é a vacina que funciona ou que não funciona, independentemente de interesses geopolíticos.

O meio ambiente, a preservação ambiental, precisa da liberdade, para que os problemas reais sejam tratados com um diagnóstico correto, para que não se criem anjos e demônios, para que se saiba que há desafios diferentes em diferentes países; embora seja, como se diz, um tema global; mas isso não pode significar soluções únicas. Acho que há uma evolução razoável nesse sentido, de entender as diferentes realidades. No caso do Brasil, um país que tem tantos desafios e que, ao mesmo tempo, tem feito tantos esforços nesse tema do meio ambiente, os quais os senhores tanto nos ajudam a transmitir aos seus países.

E a democracia precisa de liberdade. Parece óbvio, deveria ser óbvio, mas não necessariamente. Alguns parecem achar que é possível haver uma democracia, instituições democráticas onde as opiniões divergentes não são aceitas e são caladas, são perseguidas, a pretexto de fake news. Eu acho que nenhum cérebro humano, ou conjunto de cérebros, ou uma instituição, entidade, privada ou pública, tem a capacidade de determinar qual é a verdade de cada elemento, de cada frase, de cada afirmação, e dizer “isso é falso”, ou “isso não é”, e “vamos prender quem fala que é falso”, e “vamos louvar quem fala que é verdadeiro”. Isso não é democracia. Isso é impossível, mesmo que se aja de boa-fé; é impossível haver esse controle central da verdade.

E acho que nós, diplomatas, estamos especialmente posicio­nados, qualificados para entender isso, porque nos confrontamos diariamente com a diversidade de opiniões, com a diversidade de realidades. Sabemos que aquilo que se diz de um país, quando chegamos naquele país, é diferente. Sabemos que, infelizmente, isso não é de hoje, mas hoje isso se acentuou. O fluxo de narrativas, muitas vezes, baseia-se em estereótipos e, portanto, temos esse dever de ajudar nossos colegas em outras áreas de nossos governos, ajudar a opinião pública dos nossos países a entenderem que as coisas são diferentes, muitas vezes, quase sempre, daquilo que se diz nas manchetes; que as realidades são mais complexas e que as soluções são mais complicadas. Isso é um dever, e acho que precisamos estar juntos nessa empreitada, nesse mundo onde não há essa facilidade tão grande – seria bom se houvesse – entre definir “isso é fake news” e “isso não é fake news”. Eu acho que é um conceito que se tornou destrutivo da verdade, da livre busca da verdade.

Queria dizer também que a espiritualidade precisa da verdade. Ficamos muito impressionados ontem – minha mulher, Maria Eduarda, e eu – no evento da Embaixada do Bahrein (não sei se o Encarregado de Negócios do Bahrein está aqui conosco) sobre, basicamente, liberdade religiosa; sobre as iniciativas extraordinárias que o Bahrein tem tomado nessa área, o Centro Global para a Coexistência Pacífica e suas ações na área da coexistência não só pacífica entre as religiões, não só do ponto de vista do respeito e da tolerância, mas da compreensão mútua, da valorização mútua entre religiões e culturas, e da valorização da espiritualidade. Eu acho que isso é muito importante. 

Hoje, quando falamos de paz, quando falamos desse trabalho pela paz no mundo, muitas vezes, algumas linhas de pensamento, explícita ou implicitamente, dizem que a religião é o problema, ou mesmo que a espiritualidade é um problema, a ideia de que a paz no mundo só será alcançada se as pessoas deixarem de lado a dimensão espiritual ou se deixarem suas religiões, suas práticas, sua fé e suas crenças, criando uma espécie de passividade universal, chamando isso de paz.

Isso não é paz. Paz, eu acredito, só pode surgir se o ser humano for integral, se as pessoas, dentro dos seus países, no mundo, e se os países se relacionarem a partir de suas identidades, se as pessoas se relacionarem a partir das suas crenças, das suas opiniões. Não só com a tolerância mútua (claro, já é um bom começo), não só não cometendo violência a partir das suas crenças, mas indo além, entendendo, valorizando a sua própria cultura. 

Muitas vezes a falta de liberdade religiosa em alguns países vitimiza a própria tradição dominante, ou anteriormente dominante, nesses países. Eu tenho essa impressão, sobretudo em países ocidentais, dessa rejeição do próprio princípio da espiritualidade como algo que faça parte da vida e que deva fazer parte da vida, seja individual, seja nacional, seja internacional. Eu acho que isso é uma imensa redução do ser humano, é uma imensa redução das nações e da nossa vida. Seria mais fácil, talvez, um mundo sem religiões? Não sei; seria certamente um mundo não humano; seria um mundo onde as pessoas seriam metade do que são, seriam somente a sua metade material.

Quando nós falamos isso, quando eu transmito algumas ideias a partir dessa perspectiva, muitas vezes isso é capturado por uma certa narrativa; chamam-nos de obscurantistas. Acho que todos os grandes pensadores da história, talvez 99%, reconheceram que o ser humano tem uma dimensão espiritual, e que essa dimensão se exerce basicamente através de crenças, de práticas religiosas, através da fé. Há alguns pensadores extremamente materialistas, mas são a exceção, certamente na tradição ocidental, que evidentemente eu conheço mais, mas eu acho que também em outras tradições. Mas isso, de repente, por essa narrativa superficial, é considerado um obscurantismo.

Então, nós temos procurado introduzir essa dimensão do não material, digamos assim, da dimensão espiritual do ser humano. Uma das nossas iniciativas leva-me a parabenizar o Embaixador Fabio Marzano, professor do curso de “Clássicos”, que nós introduzimos no Instituto Rio Branco; ele acaba de organizar uma publicação com ensaios selecionados produzidos pelos alunos do Instituto Rio Branco nessa matéria de “Clássicos”. São ensaios extraordinários que vão desde Platão, Santo Agostinho até Proust, Nietzsche, enfim, diferentes abordagens. Claro que não é um curso para ensinar toda a tradição ocidental – isso é impossível; nenhum de nós nem a domina –, mas para estimular as pessoas a viverem nesse mundo das ideias, nesse mundo do espírito, lato sensu, tanto do espírito do ponto de vista filosófico quanto especificamente da religião, para compreender a profundidade enorme das nossas tradições culturais. 

Eu acho que isso também é uma contribuição que nós podemos dar, que nós estamos tentando dar para o pensamento diplomático, para que não fique apenas na leitura das resoluções, dos tratados internacionais, mas que seja parte de toda essa tradição ocidental, no nosso caso, universal, de cada cultura. Então, eu queria especificamente fazer uma homenagem ao trabalho do Embaixador Fabio Marzano; não só nisso, mas em tantas outras coisas. Na repatriação que ele comandou; a equipe do Itamaraty conseguiu repatriar, acho, 38 mil brasileiros; e fazendo instruções para a condução da nossa política, a partir da coordenação comigo, em áreas que têm tudo a ver com isso que nós estamos falando aqui: a nossa presença em organismos internacionais na parte de meio ambiente, na parte de direitos humanos. 

Então, o meu muito obrigado, meu reconhecimento pelo trabalho do Embaixador Marzano, em nome de quem quero parabenizar todos os nossos colegas que têm ajudado de maneira imprescindível a implementar, a construir essa obra, começando pelo Secretário-Geral, que eu já disse que é o mestre de obras nessa construção, mas todos os outros colegas do Itamaraty, das chefias até os mais modernos. 

Queria dizer que precisamos pensar realmente em conjunto nesse mundo pós-COVID-19. Fala-se muito no Great Reset. Não sei se os senhores já devem ter acompanhado, mas eu não acho muita graça nessa coisa de Great Reset, e acho que precisamos ter muito cuidado com esse tipo de ideia. Em primeiro lugar, por causa do tema da democracia, do tema de quem toma as decisões. Quem vai dizer o que é esse Great Reset? Um grupo de iluminados? Eu tenho participado de algumas reuniões onde tem surgido esse tipo de tema, organizadas sobretudo pelo Fórum Econômico Mundial, com pessoas que eu prezo muito, com a participação de alguns ministros de outros países, de muitas pessoas de think tanks e do setor privado; geralmente, eu sou a ovelha negra nesses debates, porque eu acho que ninguém, nenhum grupo de pessoas pode arvorar-se nesse grupo de grandes intelectos iluminados: “agora nós vamos resetar o mundo, nós vamos fazer o Great Reset; estava tudo errado; vamos aproveitar essa confusão e vamos criar essa espécie de despotismo esclarecido globalista.”

Tenho colocado as minhas ideias, quando posso, contrariamente a isso. Acho que isso é contrário aos interesses dos nossos povos. É claro que precisamos mudar muita coisa, mas não podemos ceder as nossas soberanias e ceder os nossos interesses nacionais, as nossas identidades nacionais. De repente, há uma ideia de um grupo não muito nomeado de pessoas, de instituições, que sabe tudo e faz tudo. 

Temos de preservar a soberania nacional como locus da demo­cracia. Temos de preservar os organismos internacionais como eles são, organismos internacionais e não supranacionais. Sim, reset, mas reset conversado, sabendo o que está por trás. Já perguntei: “sim, e quem vai apertar, qual é o dedo que aperta esse botão do Great Reset? Quem autorizou alguém a apertar esse botão e definir o que será esse Great Reset?” 

Impressiona-me muito que, nessas discussões, nunca se fala de liberdade e nem de democracia; fala-se em melhores condições de vida – ótimo –; combate às desigualdades sociais – excelente –; combate à pobreza; desenvolvimento sustentável – objetivos muito louváveis –; igualdade de gênero entre homens e mulheres; direitos humanos – excelente –; mas não se fala de liberdade; não se fala de democracia. Então se diz: “o mundo pós-COVID-19 será mais isso, será mais aquilo, será um mundo mais verde ou mais sustentável, será um mundo mais digital, será um mundo de novas interconexões”, mas ninguém fala que será um mundo mais livre. E tem que ser um mundo mais livre. É por isso que nós temos que nos bater. Sem a liberdade, não haverá desenvolvimento sustentável, não haverá nenhum outro bem que se sustente e, ao mesmo tempo, que respeite a liberdade e a dignidade humana.

Uma coisa que me preocupa muito é que se fala que será um mundo em que as pessoas comerão menos carne. Isso realmente, para mim, seria um drama – com todo o respeito aos vegetarianos e veganos. Mas quem decidiu? Quem decidiu por mim? Eu acho que deve ser um mundo onde as pessoas que queiram comer carne tenham mais acesso à carne, claro, com todas as precauções sanitárias e ambientais. 

Existe um pouco esse dogma de que a alimentação vai destruir o meio ambiente. Se a gente vir o Brasil – o mundo também –, não tenho os dados de cabeça, mas as áreas do Brasil dedicadas a pastagens diminuíram nos últimos 20 anos; o que aumentou foi a produtividade. No mundo todo, a área total mundial dedicada a lavouras diminuiu nos últimos 20 ou 30 anos, com muito mais produtividade, alimentando muito mais pessoas. Então, a volta dessa temática malthusiana de que “olha, precisamos também diminuir, botar um teto no crescimento populacional, se não, não vai haver comida, não vai haver nutrição”, isso já foi desmentido dezenas e dezenas de vezes, e mais uma vez isso volta como um pretexto para a criação dessa espécie de poder global, que é algo extremamente preocupante.

Eu presto muita atenção nesses debates. Existe uma figura que surgiu, sempre em inglês, o “we”: “we have to do this”, “we have to ensure the world has more sustainability, more food, or whatever”. Quem é esse “we”? Eu acho muito preocupante isso, esse “we” anônimo. Não. Quem é responsável? Os países, as nações, reunidos nos organismos, reunidos nos vários fóruns multilaterais, com as suas responsabilidades perante os seus povos, com as suas responsabilidades perante uns aos outros. Esse é o único “we” que nós podemos, a meu ver, reconhecer.

A partir dessa elucubração, eu queria fazer esse apelo: não deixemos que a COVID-19 seja um pretexto para a perda do impulso rumo à liberdade. Um impulso que já começou, muitas vezes, no mundo e que sempre, infelizmente, se retraiu. Começou, acho, depois da Primeira Guerra Mundial; depois, perdeu-se o impulso; depois da Segunda Guerra Mundial; depois rapidamente também se perdeu o impulso; depois de 1989, da queda do Muro de Berlim, novamente se disse “agora o mundo vai ser livre”, e ao cabo de 30 anos isso não aconteceu. Esse impulso de democratização e de liberalização ficou muito aquém do que se esperava naquele momento. 

E agora esse Great Reset seria o quê? Seria o great reset de 1989? Seria um great reset para o que existia antes, para um mundo onde se colocava a economia na frente da liberdade e, ao mesmo tempo, não se tinha uma boa economia (pelo menos em boa parte do mundo)? Onde, a pretexto de combate à pobreza, se confiscava a dignidade humana? Certamente, não é esse mundo que o Brasil quer, e não é esse mundo que, eu acredito, alguém deva almejar.

Queria dizer que, em todos os contatos, em todos os foros, o Brasil, eu, nossa equipe, o Itamaraty, nosso governo está pronto a cooperar, a dialogar com todos, mais do que tudo, na defesa da liberdade.

Muito obrigado.

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* Fonte: Ministério das Relações Exteriores

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