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Entrevista do Ministro Ernesto Araújo concedida ao programa “Brasil em Pauta”, da TV Brasil (23/08/2020)

 

Paulo La Salvia – Conhecido também como Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores é o órgão do Poder Executivo responsável por colocar em prática a política externa brasileira. 

Com mais de 200 representações ao redor do mundo, o Ministério das Relações Exteriores também é responsável por dar assistência aos brasileiros no exterior e, também, permitir que as empresas brasileiras possam fazer comércio ao redor do mundo.

Hoje eu recebo aqui, no “Brasil em Pauta”, o Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que vai falar sobre este e mais assuntos conosco. 

Muito obrigado pela presença do senhor aqui no “Brasil em Pauta”.

Ministro Ernesto Araújo – É uma alegria estar aqui com vocês. Muito obrigado.

Paulo La Salvia – Muito bom. Ministro, eu acho que nós poderíamos começar a nossa conversa pelo tema que está mobilizando 2020, que é essa questão da pandemia do coronavírus, e falar um pouco desse trabalho que o Ministério das Relações Exteriores vem executando praticamente desde o começo do ano, de repatriar esses brasileiros que estavam no exterior. Como é que está sendo esse trabalho, Ministro?

Ministro Ernesto Araújo – Sim. Está sendo um trabalho fundamental, porque ele tem a ver com a essência da nossa atividade, que é ajudar na presença dos brasileiros no exterior e ajudar esses brasileiros quando eles estão em dificuldades, e nada acho que é mais nobre do que ajudar as pessoas que precisam voltar para a pátria quando vão encontrando dificuldades nesse sentido. É a repatriação. É algo que nos remete à nossa vocação básica, aqui, do Itamaraty, e, por isso, tem sido algo muito gratificante que mobilizou e continua mobilizando muitos colegas aqui – acho que, praticamente, toda a Casa (é como chamamos aqui, Casa, porque todos nos sentimos parte, digamos, de uma família aqui na nossa diplomacia) mobilizada; tanto no Brasil quanto no exterior. É uma Casa que tem essas 200 representações no exterior que nós coordenamos, como você falou, e todos estão empenhados nisso: as pessoas nos consulados, nas embaixadas, aqui em Brasília, na central que nós montamos para isso, porque foi a maior operação desse tipo que já foi feita na nossa história. Até aqui já conseguimos, de diferentes maneiras, ajudar o retorno ao Brasil de 38 mil pessoas; um pouco mais de 38 mil brasileiros. 

Ficou muito claro que é algo que só esse tipo de presença no exterior pode fazer – a nossa rede de postos, a nossa rede de embaixadas –, para organizar com cada país os voos, os transportes; em muitos países, havia dificuldades mesmo de transporte dentro do país, as pessoas não podiam nem andar de ônibus para ir até o aeroporto, tudo dependia de uma negociação com o governo local: “olha, tem brasileiros aí que precisam sair”, etc. Cada caso é um caso. E foi muito bacana, também, muito gratificante por isso, porque acho que nós conseguimos traduzir concretamente esse conceito de que ninguém fica para trás. Havia países onde, em certos momentos, havia 8 mil, 10 mil brasileiros que estavam com dificuldade para retornar, como Portugal, e países onde havia um brasileiro, dois, três, cinco. E nós fizemos de tudo, sem nenhuma diferença, para ir lá: “bom, onde é que tem o brasileiro que nos contactou pedindo ajuda para retornar?”

Paulo La Salvia – Todo brasileiro que está no exterior é um pouco do Brasil que está lá também.

Ministro Ernesto Araújo – Exatamente. E nessa hora eu acho que as pessoas sentiram isso, essa conexão. Então foi bonito ver os vídeos que as pessoas fizeram no momento do embarque; é sempre uma coisa emocionante, não é um embarque normal numa situação dessas. 

Paulo La Salvia – Tanto é emocionante lá como quando as pessoas chegam aqui.

Ministro Ernesto Araújo – Sim. Com bandeira, com aquela sensação de fazer parte de algo que, no fundo, é a missão que nós nos propusemos aqui, que é a missão do nosso governo, do projeto do Presidente Bolsonaro, que é de nos conectar com o povo brasileiro; de fazer, no nosso caso, aqui, uma política externa voltada para o povo brasileiro. E nada mais direto, mais simbólico do que essa atuação de conseguir facilitar, permitir o embarque desses brasileiros para retornarem.

É claro que isso custou recursos. Nós obtivemos ainda recursos orçamentários suficientes para isso, para fretar voos. Nunca tinha havido esse tipo de operação de fretamento de voos; fretar, em alguns casos, ônibus para trazer as pessoas por vias terrestres.

Paulo La Salvia – Tornou-se uma prioridade também.

Ministro Ernesto Araújo – Tornou-se uma prioridade. E fez parte desse esforço de todo o governo e de combate aos diferentes aspectos da pandemia. Então, ficou muito claro que o Itamaraty faz parte desse conjunto de um governo que está aqui, aberto para as pessoas, para fazer o que os brasileiros precisam.

Paulo La Salvia – Agora, essa capilaridade do Ministério das Relações Exteriores do Brasil no mundo e a própria imagem que o Itamaraty, o Brasil tem lá fora, de uma certa forma, facilitaram esse processo?

Ministro Ernesto Araújo – Certamente. É claro que não podemos ter consulado, embaixada, em todas as cidades, nem mesmo as mais importantes. Em lugares onde não há a embaixada brasileira presente, então há sempre uma embaixada próxima que representa o Brasil naquele lugar. Mas nós temos, para um país com as nossas características, uma rede de postos muito grande, realmente. No ano passado até fechamos algumas embaixadas que pareciam que não tinham tanta razão de ser, mas hoje, eu acho que nós temos uma rede que se justifica, porque, realmente, interesses presentes: há os interesses comerciais, como você mencionava no começo, interesses de atração de investimentos, e, nesse caso presente, de assistência aos brasileiros. Nós precisamos ter essa presença física de embaixadas, de consulados. E se você compara com custo, isso é um custo baixo. A manutenção disso, claro, custa dinheiro, mas eu acho que os brasileiros viram agora que se justifica, porque, na hora que foi preciso, estavam lá as embaixadas, estavam lá os consulados para assisti-los. 

Mas isso é um desafio permanente nosso – de justificar o que isso custa para os contribuintes brasileiros; de conseguir trabalhar na atração de investimentos, como eu dizia; na promoção dos nossos interesses; na divulgação da nossa imagem; da nossa imagem correta. Muitas vezes tem aparecido uma imagem muito distorcida do Brasil. Nós queremos, simplesmente, mostrar lá fora a realidade do Brasil e, por mais que nós possamos fazer isso à distância – hoje com as redes, etc. (aliás, o uso das redes sociais do Itamaraty foi fundamental para encontrar e se comunicar com as pessoas que precisavam de repatriação) –, mesmo assim, faz uma diferença ter a presença, faz uma diferença ter as embaixadas que conhecem o local, que podem trabalhar, então, na assistência aos brasileiros, que podem trabalhar com as empresas brasileiras que querem exportar ou investir a partir daquele lugar e que tenham os contatos para essa questão da divulgação, da apresentação da imagem do Brasil. 

Isso eu digo muito: não é construir uma imagem do Brasil, é apresentar uma imagem do Brasil, porque estamos convencidos de que a realidade é de um país que está mudando rapidamente, um país que está superando um sistema de atraso, de corrupção, um país que está crescendo – claro que com as dificuldades desse ano, mas, entre os países do G20, é um dos que estão tendo o melhor desempenho econômico; ao mesmo tempo, com uma política ambiental sólida (é um tema que aparece muito na mídia internacional), com políticas de direitos humanos muito sólidas, muito competentes, e isso tudo precisa chegar às pessoas no exterior; então, isso faz parte também dessa nossa presença. De modo que acho que tudo isso se soma para mostrar essa conexão do Itamaraty com a sociedade brasileira.

Paulo La Salvia – E a questão das fronteiras? Como está a questão das fronteiras? Existem alguns países que estão com as fronteiras fechadas em relação aos brasileiros, o Brasil também tem fronteiras fechadas. Esse processo vai distender-se nesse segundo semestre? Como o senhor avalia isso?

Ministro Ernesto Araújo – Sim. Nós temos tido reuniões de coordenação com vários órgãos, praticamente semanais, coordenadas pela Casa Civil, com o Itamaraty, com o Ministério da Defesa, com o Gabinete de Segurança Institucional, com o Ministério da Saúde, etc. 

Por nós, já poderíamos estar abrindo praticamente todas as fronteiras. O que acontece é que, na maioria dos casos, o outro país (dos dez com os quais nós fazemos fronteira) ainda não se sente preparado para isso, por diferentes razões. Mas, por exemplo, com o Uruguai nós conseguimos um entendimento para facilitar, ali, a vida do trânsito da população fronteiriça, porque o trânsito na fronteira Brasil-Uruguai é muito intenso.

Paulo La Salvia – Atravessa uma rua e você está no outro país.

Ministro Ernesto Araújo – Exato. Mas em outros lugares que têm essa vida fronteiriça muito intensa também, nós estamos trabalhando, com o Paraguai, para facilitar um pouco, ainda está um pouco aquém, com a Bolívia também seria importante, com o Peru, com a Colômbia e, em todos esses casos, o lado brasileiro já tem (eu tenho falado com os chanceleres desses países) tentado mostrar: “olha, quando vocês quiserem abrir, nós estamos prontos para abrir”. Porque achamos que essas populações de fronteira precisam já voltar à normalidade. Esse comércio fronteiriço é muito importante para essas populações. O Presidente sempre tem essa preocupação muito grande com a vida das pessoas, claro, com a vida real das pessoas; reconhece essa realidade de fronteira, então ele sempre nos pede: “olha, trabalhem com outro país e quando o outro país estiver pronto nós estamos prontos a abrir também”, então, nós temos tido essa atitude de pensar nas populações fronteiriças. Mas claro, a fronteira tem dois lados. Não adianta abrirmos se do outro lado não abrir, tem que ser uma coisa coordenada. 

E, como se sabe, já abrimos as fronteiras aéreas, para o tráfego aéreo, e até já temos sido elogiados por isso por diferentes parceiros ao redor do mundo. A nossa abertura para manter os voos em funcionamento foi importante, vários países nos elogiaram por isso, por manter os aeroportos abertos. Isso, nos contatos que eu tenho tido também, de diferentes formatos, com ministros de outros países, sempre é reconhecido, porque houve países que fecharam completamente o tráfego aéreo – isso dificulta a vida não só de quem mora lá, claro, mas de quem precisa fazer trânsito por esses países. 

Paulo La Salvia – A própria questão da importação de insumos que são utilizados no combate à pandemia.

Ministro Ernesto Araújo – Evidente. Isso é outra dimensão que é muito importante. Nós trabalhamos muito para, sempre que necessário, viabilizar essa importação de insumos, para receber doações e para fazer importações desses insumos. 

Por exemplo, com a Índia, foram dois contatos: um do Presidente Bolsonaro com o Primeiro-Ministro da Índia e outro meu com o Chanceler indiano, que permitiram que trouxéssemos um carregamento grande de insumos para a hidroxicloroquina – que tem-se revelado um remédio tão importante no combate à COVID-19 –, com a China também; houve muita corrida, digamos, de muitos países para comprar insumos na China, que é o grande produtor de vários desses insumos.

Paulo La Salvia – Mais de 90%, 95%.

Ministro Ernesto Araújo – Dependendo do produto, sim. Chegando até a esses números. Então, foi necessária uma mobilização da nossa embaixada, dos nossos consulados na China para, muitas vezes, fazer, ali, a burocracia das importações. Isso foi garantido, nunca faltou essa cooperação para trazer esses insumos da China, por exemplo. 

E isso, eu sempre gosto de dizer, não só as coisas importadas pelo governo federal, pelo nosso sistema de saúde, mas por governos estaduais e por empresas privadas também. Então, nós atuamos quando qualquer governo estadual nos pedir, independentemente de partido ou filiação, o que quer que seja, nós atuamos para ajudar a fazer os embarques, a fazer as importações.

Paulo La Salvia – Ministro, nós falamos bastante sobre esse trabalho do Itamaraty, do governo brasileiro no enfrentamento da pandemia do coronavírus. Agora, eu queria trazer outros assuntos à tona, e eu acho que um assunto também bem importante nesse momento é essa ajuda humanitária do Brasil em relação ao Líbano. Isso reforça um pouco a tradição do Itamaraty, do Brasil em relação a outros países, a essa fraternidade que o Brasil sempre estabeleceu com outras nações?

Ministro Ernesto Araújo – Sem a menor dúvida. Isso é uma tradição muito grande, muito importante para nós, de estarmos presentes em todos os lugares do mundo a partir dos nossos valores, a partir dessa diversidade da sociedade brasileira. Isso é muito claro no Líbano, um país tão caro a nós por causa da imensa comunidade libanesa no Brasil; então, o que está acontecendo, digamos, é uma atualização dessa nossa tradição. Uma vez mais surgiu, de maneira muito clara, essa irmandade que nós temos especificamente com o Líbano. E que tem, claro, a dimensão imediata do choque que causou nos brasileiros aquela explosão.

A vontade de fazer algo e a mobilização enorme que houve da comunidade libanesa no Brasil para fazer doações, muitas estão indo, ainda, por via marítima e outras foram, já, por avião. Estamos vendo, aí, talvez, a necessidade de outros voos para levar. Quer dizer, há uma mobilização muito grande não só da comunidade libanesa, mas, muito especificamente dessa comunidade. E, ao mesmo tempo, acho que isso vai fazer uma diferença para o Líbano. 

Ao mesmo tempo, de maneira até mais profunda, isso está sendo um símbolo desse nosso desejo de fazer algo pelo futuro do Líbano – um país que enfrenta tantos desafios, há décadas. Então, o que nós queremos fazer não é só materialmente essa ajuda humanitária, mas, também, inclusive, politicamente, e como uma contribuição nossa à paz e à prosperidade naquela região, de entendermos melhor o que podemos fazer para que o Líbano, enfim, reencontre aí a sua vocação, o seu caminho. É um país que tem tido dificuldades econômicas, tem tido dificuldades políticas, e o Brasil – como um país, embora distante, mas que tem a maior comunidade libanesa fora do Líbano – tem, inclusive, uma responsabilidade nisso, que nós precisamos assumir.

Então, acho que isso faz parte de uma nova visão também que nós estamos levando desde o começo desse governo para o Oriente Médio, que é uma visão de restaurar, digamos, justamente essa boa tradição do Itamaraty, que é de ter a melhor relação com todos os parceiros daquela região. A nossa interpretação, a nossa visão, é de que havia uma dificuldade muito grande criada por nós no relacionamento com Israel, que é um parceiro decisivo para tudo que tem a ver com a paz e com a estabilidade no Oriente Médio. Então, o que nós diagnosticamos foi isso, que o problema era um certo viés contra Israel. Ao corrigir isso e ao elevar a nossa relação com Israel para um outro patamar, como acho que nunca houve e, ao mesmo tempo, continuar trabalhando com os países árabes, inclusive criando relações sem precedentes com vários deles...

Paulo La Salvia – Com os países do Golfo.

Ministro Ernesto Araújo – Com os países do Golfo, muito especificamente: Arábia Saudita, Emirados Árabes, Catar, etc. 

Paulo La Salvia – Atraindo investimentos para o Brasil...

Ministro Ernesto Araújo – Claro. Sim. Tudo com um duplo viés, acho que, com uma dupla dimensão. Atrair investimentos, são os países que estão entre os maiores emissores de investimentos no mundo, mas, também, de ter uma presença nessa reconstrução do Oriente Médio, que tem mudado muito para melhor. Esse acordo recente entre Emirados Árabes e Israel mostrou isso – o crescente reconhecimento dos países árabes em relação a Israel –, o que cria um caldo de cultura, digamos, muito mais favorável à paz naquele país, naquela região. Tudo isso faz parte de uma atitude nossa. 

E, agora, o Líbano também. Nós achamos que o Brasil, com essa relação que nós reconstruímos, digamos, com Israel, que nós estamos aumentando com vários países árabes, países centrais do mundo árabe, e o fato de que somos, em grande parte, um país árabe, por causa da nossa comunidade libanesa, isso nos coloca numa posição, talvez, privilegiada para contribuir com a paz naquela região. 

Então, considero este um momento muito interessante para nós por isso, porque desmente completamente a visão de que nós estávamos nos afastando da região ou de que a melhora da nossa relação com Israel significava uma opção “contra”, digamos assim, os países árabes – porque nunca foi.

Paulo La Salvia – Ou poderia fazer com que o Brasil se afastasse dos países árabes.

Ministro Ernesto Araújo – Exato. O que não foi, absolutamente, o caso. O nosso comércio com os países árabes está crescendo, a vinda de investimentos está crescendo.

Paulo La Salvia – Pela primeira vez, os fundos de investimentos da Arábia Saudita vão aportar recursos no Brasil.

Ministro Ernesto Araújo – Exato. Estamos, aí, fechando esse pacote de investimentos de US$ 10 bilhões com a Arábia Saudita. E é interessante, quando nós estivemos em Riade, no ano passado, com o Presidente, o Príncipe Herdeiro da Arábia Saudita falou: “olha, há vários anos nós estamos olhando para o Brasil e sempre nos perguntando se é o momento de investir no Brasil. E sempre pensando ‘não, ainda não é o momento’. E ano passado dissemos ‘agora, concluímos que é o momento de investir no Brasil’.” Então, isso é uma demonstração de confiança extraordinária, porque reflete não só a perspectiva econômica, mas a perspectiva de confiança. Eles viam que o Brasil, sobretudo nessa área de infraestrutura, que interessa tanto a eles, tinha desafios ligados realmente a um sistema que gerou corrupção, que gerou problemas nessa área no passado, e que, agora, isso está sendo superado, existe um governo com uma perspectiva de mudança, com uma perspectiva de abertura. 

O mesmo caso com os Emirados Árabes, que já estavam presentescom os fundos deles, mas que estão aumentando, de modo que se trata de um reconhecimento não só do tamanho da nossa economia, mas da qualidade. Nós estamos numa mudança quantitativa, mas, também, qualitativa, que eu acho que é muito importante, da nossa estrutura econômica, da nossa estrutura produtiva, da qualidade dos investimentos, da garantia dos contratos, da garantia de que não vai haver superfaturamento, de que não vai haver atraso de obras por causa de problemas que havia no passado. 

Então, tudo isso constitui um conjunto. No caso de Israel, também, há interesses econômicos muito grandes na área tecnológica, sobretudo; Israel é, talvez, o segundo polo tecnológico do mundo em muitos setores, primeiro em alguns, e, ao mesmo tempo, com essa perspectiva que tem a ver também com a nossa essência, que é de levar a nossa capacidade, digamos, de gerar harmonia, de gerar entendimento sem deixar de ser o que nós somos. Eu acho que é isso que está acontecendo também no Oriente Médio, é um exemplo interessante. É você construir a paz a partir das identidades dos povos. 

Paulo La Salvia – Claro. Sim. Eu assisti, neste mês de agosto, uma live do senhor no YouTube em que o senhor usou uma figura de linguagem que eu achei interessante, a de que existem alguns mitos sobre a atual política externa do Brasil em relação ao mundo e que, na verdade, são mitos. Um deles, o senhor citou, por exemplo, a China, apontando que, na verdade, a relação do Brasil com a China está ótima, tanto que as exportações nesse primeiro semestre de 2020 aumentaram 30% em relação ao primeiro semestre de 2019. Ou seja, o Brasil está numa relação boa com a China.

Ministro Ernesto Araújo – O Brasil tem uma relação boa com a China, que se traduz muito nesse aumento das exportações. Ter um parceiro comercial dessa natureza, com essa importância, isso realmente não seria assim se não tivéssemos essa boa relação. Eu acho que é interessante também comparar, claro que não me cabe falar do ponto de vista chinês ou de outros países, mas, pelo que acompanhamos ao redor do mundo, você vê como estão as relações da China com grandes países: com os Estados Unidos, com o Canadá, com a Índia, com o Japão, com a Austrália. Você nota que a qualidade da nossa relação com a China é superior à que ela tem com todos esses países.

Paulo La Salvia – O Presidente Bolsonaro foi com o senhor até lá. Ministro Ernesto Araújo – Sim. Exato. Então, enfim, a ideia é totalmente falsa de que existe alguma animosidade entre nós e a China. Não encontra nenhum fato para apoiá-la, não só em termos absolutos, ao se olhar a relação em si, mas se você compara com outras dinâmicas em relação à China, que é um país que tem relações tão importantes com tantos países, eu acho que o Brasil está, digamos, com uma qualidade de relação superior à que a China tem com outros grandes parceiros. E isso é resultado de um trabalho sério, de um trabalho cotidiano nosso de criar isso e, também, mais do que tudo, da competência, da competitividade dos nossos exportadores, obviamente.

Mas eu acho que é muito importante falar dessa situação, desse mito que existe de que nós temos uma relação complicada com a China, o que não é verdade.

Paulo La Salvia – Na verdade, é uma disputa de narrativas que existe, não é?

Ministro Ernesto Araújo – É uma disputa de narrativas, exata­mente. E sempre, infelizmente, muito superficial, sem citar fatos. É um pouco uma repetição de certos lugares comuns e que acabam se tornando, na cabeça de algumas pessoas, uma realidade; mas não se coloca de forma nenhuma. 

Paulo La Salvia – Existe um mito, por exemplo, de que, se os democratas vencerem nos Estados Unidos, a relação do Brasil com os Estados Unidos vai ser diferente do que é hoje.

Ministro Ernesto Araújo – Exatamente. É uma maneira de ver muito superficial e, justamente, muito baseada em clichês, em más interpretações. Isso, eu tenho dito, nós construímos, graças a uma excelente relação do Presidente Bolsonaro com o Presidente Trump, uma nova relação com os Estados Unidos, uma verdadeira aliança que vem de um componente econômico muito forte, um componente tecnológico, na área de defesa, na área de segurança, numa relação extremamente produtiva, mas que...

Paulo La Salvia – É uma relação de Estados.

Ministro Ernesto Araújo – Exatamente. Ela se tornou possível porque houve essa sinergia. Mas as coisas que ela está produzindo são de interesse dos dois países. Vão ser de interesse de um governo democrata nos Estados Unidos, caso ganhem os democratas, assim como continuarão sendo de um governo republicano, caso ganhem os republicanos. E serão do nosso interesse. 

É preciso fazer essa diferença entre o nível da relação pessoal do Presidente Bolsonaro com o Presidente Trump, que é excelente e que se traduziu em coisas concretas, mas não quer dizer que se não houver essa relação pessoal no futuro, que essas coisas cairão por terra, muito pelo contrário: haverá todo o interesse em construir. 

É claro que eu admiro muito o trabalho do Presidente Trump. Eu acho que é um Presidente que cuidou bem dos interesses do seu país, e nós encontramos muitos terrenos comuns entre os interesses dos Estados Unidos e os nossos interesses. Agora, não existe, de forma nenhuma (também outro mito) um alinhamento automático. Eu vou dar um exemplo, nessa perspectiva de não sabermos se vai haver uma mudança lá, entre democratas e republicanos. Hoje, por exemplo, uma dimensão que nós trabalhamos muito junto com os Estados Unidos é na questão do direito à vida. Nós somos um governo que tem uma atitude extremamente pró-vida, e os Estados Unidos também, hoje, têm um governo que é extremamente pró--vida. Então, em fóruns onde se discute essa questão do aborto, nós estamos sempre juntos com os Estados Unidos, não porque haveria a opção do alinhamento automático, mas é porque nós temos a mesma convicção que eles. Se vier um governo americano que tem uma posição diferente, uma posição que não seja essa, que não seja uma posição pró-vida, certamente nós não estaremos junto com eles. Nós vamos continuar defendendo o direito à vida em todos os fóruns onde isso se colocar. Não é porque os Estados Unidos mudaram de posição que nós vamos mudar de posição. Acho que isso é algo muito importante de se entender: nós trabalhamos com os Estados Unidos a partir das nossas convicções e a partir dos nossos interesses. Se os Estados Unidos mudarem aqui ou ali, nós não vamos seguir e nos desviar das nossas convicções porque são os Estados Unidos ou qualquer outro país que está mudando. 

Paulo La Salvia – Ministro, infelizmente o nosso tempo está acabando. A conversa está boa. Eu quero que o senhor venha em outro momento para conversarmos outros assuntos tão relevantes quanto esses. O trabalho aqui no Itamaraty é um trabalho fantástico. Não falamos da questão comercial, do acordo com a OCDE, com a EFTA – que eu acho que também rende um programa inteiro –, mas agradeço muito a participação do senhor aqui.

Ministro Ernesto Araújo – Eu que agradeço a oportunidade. Nós temos feito tantas coisas, então seria bom ter a oportunidade de falar algumas coisas que nós estamos fazendo. 

Paulo La Salvia – Muito obrigado, Ministro. 

Ministro Ernesto Araújo – Eu que agradeço.

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