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Palavras do ministro Ernesto Araújo no evento “Rebuilding Communities: Ensuring a Future for Persecuted Christians” – Nova York, 27 de setembro de 2019*

 

Para nós, cristãos, no princípio era o Verbo – en archê ên ho logos – e, nesse princípio, quando você olha o grego “archê”, ele significa mais que o princípio temporal, significa o princípio, o princípio organizador da realidade e da nossa fé. Então, para nós, acima de tudo, é importante falar. E é por isso que é tão importante que falemos sobre a situação dos cristãos perseguidos e sobre meios para combater esse problema. O silêncio não é mais uma opção para nós, como disse Péter [Szijjártó, ministro das Relações Exteriores da Hungria], precisamos lidar com isso e precisamos começar conversando e analisando, e nos reunirmos aqui é um passo muito importante nessa direção.

O presidente Jair Bolsonaro, em seu discurso na abertura da Assembleia Geral, falou sobre esse assunto – ele discutiu vários assuntos – e falou sobre o que os brasileiros pensam e sobre o que ele pensa; foi um discurso do coração, um discurso que foi criticado porque ele falou de forma muito direta, e eu acho que é exatamente disso que precisamos: falar de forma direta e enfrentar os problemas de frente. E o problema da perseguição aos cristãos é um desses. O Brasil está muito comprometido com esse esforço tão essencial. Também fizemos parte do lançamento da Aliança para Liberdade Religiosa, na segunda-feira passada, sob a liderança do presidente Trump e do secretário Mike Pompeo, outra iniciativa muito importante. E tudo isso porque os brasileiros se importam profundamente com esse assunto. Os brasileiros são, em sua maioria, uma nação cristã e uma nação religiosa, e nos importamos com essa questão. E estamos tentando trazer esse novo conceito de democracia: a democracia como fazer aquilo com o que as pessoas se importam. Esse deve ser o conceito original de democracia, mas ele tem sido esquecido muito frequentemente. Ademais, não oriundo de uma consideração política, mas em razão de nossa fé, e nossa fé de que também a voz do povo é a voz de Deus.

Estamos extremamente felizes de ver líderes como o presidente Jair Bolsonaro, o presidente Orbán, o Péter, aqui, falando desse problema. Estive na Hungria recentemente e emocionei-me profundamente com o modo em que os húngaros levam a fundo sua herança cristã e sua fé cristã, e elogiamos imensamente esse esforço.

Então, religiões existem e são parte da humanidade, isso é esquecido com demasiada frequência. Hoje em dia, parece que a religião é algo acidental à humanidade, mas não cremos que seja esse o caso: se você ler todos os textos antropológicos, verá que não se encontrou nenhuma comunidade humana, não importa o quão primitiva, que não apresente três elementos – algum tipo de estrutura familiar, língua e fé em algo maior. Então a fé religiosa acompanha a humanidade desde o início, assim como a família e assim como a língua, e não deveríamos tratar essa noção como primitiva, porque assim também renunciaríamos à língua, porque ela é o que nos faz humanos, e o fato de se encontrar línguas entre povos primitivos não significa que se deve desistir da língua. Da mesma forma, não se deve desistir da religião por ela ter vindo dos primórdios da humanidade.

A ameaça que enfrentamos é, claramente, o que chamamos, de certa forma, de intolerância e ignorância em nossas sociedades. Mas precisamos começar pensando no que acontece em países de maioria cristã, porque há – incrível e tristemente – intolerância contra a fé cristã em países de herança cristã e maioria cristã. Em nossos países, o cristianismo é frequentemente hostilizado e perseguido, talvez não com violência, mas com ignorância e silêncio. Então precisamos começar nos entendendo, analisando as fundações da nossa sociedade e até que ponto elas estão arraigadas nos valores cristãos e na fé cristã.

Creio que, quando se olha para o mundo, vê-se, há algumas décadas (mas de forma muito intensa hoje), uma crise da nossa espiritualidade, uma crise de pessoas que não têm mais sua fé milenar e buscam outra coisa. Há um dito famoso de Chesterton, que disse que “quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer coisa”. Creio que, por exemplo, o extremo alarmismo climático é parte desse fenômeno: existem as questões concretas das mudanças climáticas que devem ser abordadas, mas algumas vezes tem-se a impressão de que isso está se tornando um tipo de religião substituta para algumas pessoas, em razão desse vazio espiritual que precisa ser preenchido.

Então, precisamos agir. Precisamos agir em nossas sociedades e precisamos agir em todo o mundo. Cristãos são perseguidos devido a um ódio e rivalidades milenares, dos quais os próprios cristãos não estão livres; somos parte do problema e precisamos reconhecer isso. Mas os cristãos também são perseguidos por causa dessa atmosfera cultural, especialmente no Ocidente, que não se importa com o cristianismo. Que, às vezes, até pensa que os cristãos merecem sofrer e ser perseguidos. Essa é a primeira coisa que precisamos quebrar. Precisamos mudar isso. Os cristãos perseguidos, na minha opinião, são o coração pulsante de todas as igrejas cristãs – a igreja católica, as igrejas evangélicas. Esse coração pulsante é o centro de nossa fé. Não podemos nos esquecer disso. Nós, que somos livres para decidir se vamos à igreja ou não vamos à igreja, se lemos a Bíblia ou não lemos a Bíblia, deveríamos prestar muita atenção às pessoas que não têm essa liberdade de decisão. Não deveríamos tomar como certas essas liberdades de que gozamos. E isso é também grande parte do nosso trabalho.

Apenas para concluir e retornar à questão ambiental, que está tão em voga: já foi dito que a Amazônia, da qual o Brasil possui grande parte, é o “pulmão do mundo”, em razão do oxigênio que produz... na verdade, cientificamente, isso foi questionado, essa metáfora, mas ela permanece, e tudo bem. Mas eu acho que nós deveríamos levar em consideração que a religião – e, para os cristãos, o cristianismo – é o pulmão do nosso mundo espiritual. Muito obrigado.

 

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Comentários finais

Muito obrigado! Foi um grande privilégio estar aqui. Eu gostaria de compartilhar duas coisas que me ocorreram após ouvir todas as excelentes observações e contribuições: primeiramente, há a questão de liberdade religiosa, e a questão dos cristãos perseguidos é parte disso, e eu acho que isso é de grande importância porque, às vezes, algumas das pessoas que discursam sobre a liberdade religiosa parecem falar sobre isso de forma genérica. Não existe religião genérica! Religião é cristianismo, ou islamismo, ou budismo, etc. algumas pessoas parecem confortáveis com o debate sobre liberdade religiosa, mas não estão confortáveis quando você aborda as questões reais de religiões individuais – então, quando você fala de liberdade religiosa, você precisa falar de questões específicas relativas a cristãos perseguidos, como o que nos reúne aqui hoje, além de muçulmanos perseguidos, budistas perseguidos, judeus perseguidos, etc. Mas devemos abordar as especificidades. Algumas pessoas gostam de defender a liberdade religiosa desde que não haja religião envolvida. E precisamos abordar isso, não buscar esse tipo de denominador comum. Além disso, para os cristãos, acho que muito frequentemente o mundo aceita o cristianismo desde que este seja visto como um conjunto de valores sociais e coisas desse tipo. É claro que, para nós, é mais que isso, e é o direito de celebrar os mistérios que estão no núcleo de nossa fé.

E, em segundo lugar, o presidente Bolsonaro, em seu discurso na abertura da Assembleia Geral, falou sobre uma ideologia que tentou expulsar Deus da alma humana, e vemos que a mesma ideologia que tentou afastar Deus da alma humana também tentou afastar nações do sistema internacional e do sistema multilateral, e agora vejo aqui que são nações básicas que estão assumindo essa questão de liberdade religiosa e da luta contra a perseguição de cristãos, então vejo que – talvez não por coincidência, certamente não por coincidência – há uma inversão daquela tendência, e pode-se ver que Deus está voltando às nossas discussões, e que as nações estão voltando ao centro do sistema multilateral. Obrigado!

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* Original em inglês. Tradução não oficial. Fonte: Ministério das Relações Exteriores

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