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Discurso do ministro das Relações Exteriores, embaixador Ernesto Araújo, na Heritage Foundation – Washington, 11 de setembro de 2019*

 

Boa tarde!

É um prazer estar aqui. Gostaria de expressar minha gratidão à Heritage [Foundation], realmente é uma honra estar aqui neste salão augusto.

Meus agradecimentos à presidente Kay James, ao vice-presidente Jay Carafano e a toda a equipe que tornou isso possível.

Eu gostaria de começar dizendo que acabei de perceber que hoje é 11 de setembro, então, antes de começarmos, eu gostaria de expressar nossos sentimentos em memória das vítimas daquele dia terrível. Também lembro que, um ano depois – então, em 2002 –, vi a capa, acho que da revista Foreign Policy, e a manchete dizia, sobre o 11/9, “O dia em que nada mudou muito”. É uma maneira de ver, não é? Eu acho que, então, estávamos tentando entender o que aconteceu naquele dia, e o que mudou e o que não mudou, e algumas das coisas que estou prestes a dizer também podem ser parte de uma especulação em curso sobre tudo o que mudou no mundo nas duas últimas décadas.

Então, o Brasil voltou – creio que esse é o título que dei a este discurso. Voltamos para onde nunca estivemos, mas onde sentimos que pertencemos – e onde pensamos que todas as nações pertencem. De qualquer forma, sentimos que voltamos ao centro da luta.

E sentimos que o Brasil é parte de um processo global, que tentarei descrever um pouco.

Podemos dizer que ele começou em 2013, quando, espontaneamente, centenas de milhares, talvez milhões de brasileiros foram às ruas, sem saber expressar inteiramente contra o que estavam-se revoltando, e por razões que certamente eram muito maiores que as razões imediatas da revolta – mais ou menos como o “Tea Party” de Boston [de 1773], talvez. Foi um aumento equivalente a 5 centavos de dólar no preço das passagens de ônibus que deflagrou um movimento – um movimento que, de certa forma, ainda continua no Brasil, um movimento que a esquerda, a princípio, tentou dominar e utilizar, mas que felizmente saiu de controle e tornou-se uma revolta contra todo um sistema cuja corrupção ainda não estava totalmente clara, mas da qual o povo, em sua sabedoria, já tinha uma intuição. Era uma revolta contra o sistema político-econômico, que não fornecia serviços ou oportunidades econômicas que o povo queria, apesar de sua retórica orientada para o social, mas também uma revolta cultural contra a posse do discurso público pela mídia politicamente correta.

Em uma sociedade da informação, quem controla o discurso controla o poder. As pessoas começaram a perceber isso no Brasil, lá em 2013. As pessoas foram às ruas para protestar contra algo, creio que elas não sabiam exatamente o que (eu acho que isso que os protestos são, normalmente) e elas não conseguiram o que queriam porque elas não sabiam exatamente o que era, mas, quando elas voltaram para casa, entraram nas redes sociais e nunca saíram! E elas ainda estão lá. Nós ainda estamos lá. Isso está mudando o país e é parte de uma mudança global. O povo tentando estabelecer seu poder sobre o discurso, contra o sistema político-econômico e contra a mídia, que controlam um ao outro, o sistema político-econômico e a mídia, e ainda tentam controlar o povo.

Esse movimento espontâneo ressurgiu em 2015, na forma dos protestos que pediam o impeachment e a destituição de Dilma Rousseff. Ele já possuía uma forte veia nacionalista, que ia além da simples remoção de uma líder detestada. Ele se posicionava contra o regime do Partido dos Trabalhadores (o que, aliás, é uma denominação orweliana, já que nunca se viu trabalhadores no Partido dos Trabalhadores). Ele se posicionava contra o estado gramsciano em que o Brasil tinha-se transformado, um sistema de controle da economia pelo estado e de controle da cultura pela mídia.

Eles tiraram a Dilma do poder (creio que eu posso dizer que nós tiramos a Dilma do poder, todos os brasileiros), e algumas pessoas, na época, pensaram: “Bom, acabou”, mas não tinha acabado. O Partido dos Trabalhadores tinha sido substituído no topo da hierarquia, mas o sistema continuava. O povo continuou a apoiar firmemente o combate à corrupção que estava acontecendo, a operação “Lava Jato”, que depois condenou Lula por corrupção e o sentenciou a onze anos na cadeia, uma sentença que ele está cumprindo agora, como os senhores sabem. As pessoas abraçaram como bandeira o estado de direito, como nunca antes. E elas continuaram a pressão por uma limpeza total do sistema. Então perceberam que se tratava de mais do que remover um presidente do poder; o que estava em jogo era a conexão entre o sistema milenar de “toma lá, dá cá” político-econômico e, junto com esse sistema, um tipo de projeto social hegemônico.

Esse era o Brasil, mas então, em 2016, é claro, vieram a votação do Brexit e a eleição de Trump. Isso foi percebido por poucos na época, mas creio que era um sinal de que o Brasil já era parte de algo maior, algo de natureza mais universal. Havia – e creio que ainda há – um tipo de Zeitgeist pela liberdade ao redor do mundo.

O mesmo movimento ressurgiu em torno da candidatura de Jair Bolsonaro. A partir de 2017, tornou-se cada vez mais claro que ele era o único líder político capaz de levar o povo ao poder, o único que acreditava na liberdade, na nacionalidade, em Deus, e em sua interação.

Podemos dizer que Trump e Bolsonaro são parte da mesma insurgência, o que eu chamaria de insurgência universal contra o ”bullshit” [conversa fiada, enganação].

Aqui, ali e acolá, no Brasil, nos Estados Unidos, em outros lugares, as pessoas lutam por algo além da economia, algo além de se livrar da corrupção. Algo além de recuperar seus empregos.

Mas o que mobilizou os brasileiros, os brexiters e os eleitores estadunidenses do Make America Great Again [Torne a América Grande Novamente]?

Acho que é, para usar um termo mais elegante, uma revolta contra a ideologia. A percepção de que havíamos sido enganados, de que havíamos sido desprezados por uma elite que tentava nos comandar e nos enfraquecer em nome da justiça social, ou em nome da integração europeia, ou em nome de um mundo sem fronteiras, em nome do progresso, ou o que seja. Todos nomes pretensiosos que são usados não para descrever a realidade, mas para impor uma certa estrutura de poder sobre a realidade.

Se você acredita na teoria de Toynbee do avanço da civilização pelo desafio e resposta, o que é o desafio, a grande ameaça, não somente do Brasil ou dos EUA, ou do Reino Unido ou de qualquer outro país, mas a grande ameaça que nossa civilização agora enfrenta? Alguns diriam “mudanças climáticas”, mas não é, absolutamente não é verdade. O grande desafio é a ideologia.

Em 1989 e imediatamente após, parecia que a civilização ocidental tinha superado seu maior desafio, o comunismo soviético. Na paz que se seguiu, sem um desafio, o ocidente começou a se estagnar. Começou a esbanjar. Sem a necessidade de lutar pela vida ou morte, ele começou a cometer erros sem consequências, ou a pensar que os erros não tinham quaisquer consequências. Cometeu um enorme erro no diagnóstico do que havia garantido sua vitória. Pensou que foi somente a economia que havia garantido a vitória do Ocidente, e ignorou a cultura. Ignorou, por exemplo, o conselho de Ronald Reagan em seu discurso de despedida. Pensou que a fé cristã não tinha relação nenhuma com isso, quando claramente ela foi parte importantíssima do sucesso do Ocidente, como mostra claramente a luta do Santo Papa João Paulo II. Sua ação contra o comunismo não foi uma ação política sob pretextos religiosos, mas uma ação religiosa, com base na fé, com alguns instrumentos políticos. De qualquer forma, o Ocidente abriu espaço para o surgimento do novo desafio, na forma do que creio hoje podermos chamar globalismo.

Em termos gerais, podemos dizer que globalismo é o que veio a ser o amálgama da economia globalizada com o marxismo cultural infiltrado nas instituições. Então, basicamente, a globalização econômica sequestrada pelo marxismo cultural.

No Brasil, o globalismo tomou a forma de um amálgama ligeiramente diferente, aquele do tradicional sistema corrupto de patrimonialismo dominado por uma esquerda gramsciana infiltrada nas instituições culturais. No Brasil, eles se infiltraram no que costumávamos chamar de “estado fisiológico” – eu não sei se faz sentido em inglês, mas os brasileiros aqui sabem o que quero dizer. O “fisiologismo” é como chamamos esse sistema de patrimonialismo, da economia controlada pelo estado. Então o que tínhamos no Brasil era basicamente um controle estatal da economia e controle do discurso público mais ou menos disfarçado. Uma economia fechada e sua inserção subserviente em um sistema globalizado dentro de uma espécie de controle político dos meios de produção de discurso.

Quando as pessoas perceberam o que estava acontecendo, o sistema tentou vender vários candidatos mais ou menos centristas, todos prometendo sem entusiasmo combater um pouco a corrupção e liberalizar um pouco a economia. As pessoas não acreditaram e procuraram o único que estava fora do sistema, o único que realmente estava disposto a quebrar o sistema corrupto e criar uma verdadeira economia capitalista, o único que está quebrando o feitiço politicamente correto que era utilizado para manter as pessoas dentro do sistema sem que elas notassem. Eu creio que estamos criando, no Brasil, o que chamamos amálgama liberal-conservador (liberal no sentido brasileiro, não no sentido americano, liberal no sentido de liberalismo econômico), e esse amálgama é a primeira chance real que temos de uma verdadeira economia próspera dentro de uma sociedade saudável e confiante. Estou certo de que somente em uma sociedade de confiança pode-se ter uma economia aberta próspera; somente com base no sentimento de nação, família, laços tradicionais pode-se ter uma economia capitalista funcional. O globalismo quer vender-nos a incompatibilidade desses objetivos, e nós estamos provando que essa tese está errada.

Nos Estados Unidos, o programa globalista funcionou de forma diferente – acho que não, principalmente, pelo controle estatal, como no Brasil, mas principalmente por meio da destruição da indústria americana e de sua base tecnológica, graças à globalização, também atrelada à destruição ou à erosão de laços e valores tradicionais. Mas, assim como no Brasil, também envolvia uma inserção subserviente na economia globalizada e o silenciamento de vozes dissidentes com gritos de fascista ou racista.

Então, uma maneira de encarar isso, uma maneira ligeiramente diferente de ver o desafio enfrentado por nossa civilização, é a seguinte: nossa civilização está perdendo seus símbolos, está perdendo sua dimensão simbólica. Não falo de religião, mas a vida religiosa exige a dimensão simbólica. Parece que não conseguimos gerar símbolos ou viver simbolicamente nos dias de hoje. O que são símbolos? Símbolos são basicamente figuras que nos guiam do alto, que tornam nossa vida complexa e tridimensional. Símbolos são como torres de sinal ou satélites que nos permitem encontrar nosso caminho na realidade, como uma espécie de GPS intelectual.

Recentemente, eu estava lendo um livro muito importante para entender o que está em jogo, o livro de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe sobre o conceito de hegemonia. Essas são pessoas que tentam reinventar o marxismo, e, sempre que falamos de marxismo cultural, como estamos fazendo aqui, é uma referência importante para entende-lo. Encontrei uma nota que tinha feito na lateral, algo “bom demais para ser meu”, não creio que eu a tenha escrito, mas, citando essa fonte desconhecida em um comentário àquela obra: “desde Rosa Luxemburgo, no início do século XX, o comunismo deixou de ser uma teoria econômica e tornou-se um processo de confiscação simbólica”.

Que teoria de hegemonia é essa, da qual falo? A teoria da hegemonia é uma combinação desse processo. Laclau e Chantal Mouffe são basicamente, como eu disse, os criadores do socialismo do século XXI, então essa é basicamente a teoria de que se deve transferir o conflito social da economia para outros setores da sociedade, e um bom exemplo de suas consequências é a Venezuela. Ela é um exemplo muito exitoso do socialismo do século XXI. Por quê? Porque eles simplesmente não se importam em absoluto com o êxito econômico desde que obtenham aquele êxito simbólico, aquele êxito em destruir o simbólico. Eles querem destruir a sociedade para provar e impor seu poder. De certa forma, é como a revolução cultural da década de 60. Destruição é o objetivo, não o subproduto. Eles querem criar terror para quebrar os limites da decência e ainda manter o poder, e assim mostrar seu poder. Pode haver maior afirmação de poder?

Então, a hegemonia também significa isso: significa que a esquerda perdeu o povo, e eles não se importam. “Vamos substituir o povo”, dizem eles, como Brecht costumava dizer em uma de suas peças – primeiro ele o dizia como uma zombaria e uma crítica aos regimes burgueses. Mas, como em muitos casos de teoria de esquerda, o que eles criticam é, na realidade, o que pregam. Então, a ideia é, vamos desprezar o povo e vamos humilhar seus valores, vamos humilhar o povo para quebrar sua força de vontade e subjugar as pessoas.

Essa é a nova “lógica do social”, para citar a obra mencionada. A nova lógica do social é basicamente o seguinte: o marxismo sem o povo. A vanguarda revolucionária não está onde a teoria econômica determinaria, porque há as relações capital-trabalho (isso nunca ocorreu, possivelmente, mas hoje claramente não é o que a teoria prescreve). Então, hoje a vanguarda revolucionária está onde quer que a resistência do inimigo, as pessoas comuns, onde quer que essa resistência seja menor. Então a vanguarda está nos valores morais, por exemplo, em razão da bondade natural das pessoas, também está no âmbito da imigração, em que as pessoas por natureza tendem a ser simpáticas e a não notar a penetração ideológica. De modo muito sério na América Latina, hoje, a vanguarda está associada ao crime organizado, se não ao tráfico de drogas, etc. E isso também é parte do projeto, ou seja, eles querem ser o que conseguirem ser, os mais brutais e mais chocantes. Então, para fechar essa digressão sobre o socialismo do século XXI, podemos dizer que ele é basicamente isso: o gramscismo encontra os carteis de drogas.

Então, de volta à questão dos símbolos e de sua perda. Os senhores podem dizer “qual é o problema, sem símbolos ainda temos a realidade”, mas não a temos, isso é um equívoco. Sem símbolos, somente temos o que está diante de nós, e isso não é a realidade. Sem símbolos, somente nos sobram as palavras, palavras sem realidade, palavras como meros gatilhos para o ódio ou o medo. Sem símbolos, somos presas da replicação de subideias, o que Richard Dawkins chamava de memes antes de a palavra meme adquirir o sentido que hoje tem na Internet.

Sem os símbolos, somos o homem unidimensional de Herbert Marcuse, e aqui voltamos àquele exemplo dos marxistas, porque ele escreveu aquele livro na década de 60, denunciando a sociedade consumista. Mas eu acho que na realidade era um programa para criar o homem unidimensional. Creio que esse tenha sido o objetivo de toda a Escola de Frankfurt, denunciar o que, no fundo, eles desejam criar. Por exemplo, o livro “Império”, de Hardt e Negri, ou a ideia de biopolítica em Michel Foucault e no “pan-óptico”. Embora se diga que Michel Foucault não seja marxista – mas eu acho que é parte do mesmo universo cultural. A ideia do pan-óptico, que ele descreve como algo terrível, um futuro distópico em que, de um ponto central, consegue-se controlar toda a sociedade, mas isso é o que eles estão tentando criar. Também Georg Lukács, em “A Destruição da Razão”, tenta descrever como a ascensão do nacional socialismo na Alemanha destruiu o pensamento, e eu creio que isso também seja um programa de ação, eles querem destruir a razão. Não é por acidente.

Então, para o homem unidimensional, há apenas palavras, e palavras são a realidade. Para ele, homens e mulheres são apenas palavras, e elas são intercambiáveis. E é isso que dá origem à ideologia de gênero. Para eles, não há essência, pois a essência pertence ao campo do simbólico. E assim chegamos ao globalismo, o mundo sem símbolos, essa é outra forma de dizer. É nesse momento que o nacionalismo surge como, talvez, a principal convergência de forças que se opõem ao globalismo, porque a nação ainda é um dos pouquíssimos símbolos que permanecem, mesmo que fortemente atacada, mas ainda há um símbolo que faz sentido e que manda sinais do alto para ajudar-nos a organizar a realidade de uma forma mais complexa.

Então, voltando aos instrumentos do globalismo, creio que hoje o globalismo opera por meio de três instrumentos principais. Um é a ideologia da mudança do clima, ou climatismo – para usar outra palavra, distinta da mudança climática em si como um fenômeno natural observável cientificamente. Outro é a ideologia de gênero, e outro é o que algumas pessoas chamam de oicofobia, para distinguir da xenofobia: o ódio da própria nação e, como parte disso, a teoria ou a reivindicação de um mundo sem fronteiras. Mas concentremo-nos no que é mais urgente hoje, que creio ser, desses instrumentos, o climatismo ou a ideologia da mudança do clima.

Então, existe mudança do clima? Sim, certamente, sempre existiu. Ela é causada pelo homem? Muitos dizem que sim, mas não sabemos ao certo. Modelos computacionais com base na presunção de alta sensibilidade da temperatura ao CO2 estão quase todos incorretos, de acordo com o Dr. Patrick Michaels, se não me engano: entre os 102 modelos computacionais que tentam simular o comportamento da temperatura em função do CO2, 101 estão incorretos, superestimam o aumento da temperatura. Mas tudo bem, isso é algo cientificamente observável, ou que pode ser discutido, ou deveria ser discutido. Mas, de qualquer forma, essa mudança é catastrófica a ponto de exigir os piores sacrifícios, como é dito hoje em dia? Não parece ser o caso. Segundo um dos principais documentos relativos ao debate sobre as mudanças climáticas, que é o último relatório do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima], o relatório do IPCC de 2018, em seu resumo para formuladores de política, diz o seguinte (perdão, eu preciso abrir meu plano para citá-lo), ele diz: “tendências, em intensidade e frequência, de alguns extremos climáticos e meteorológicos foram detectadas em períodos de tempo nos quais ocorreu cerca de 0,5oC de aquecimento global, confiança média”. Porque todas as declarações no relatório do IPCC são classificadas como de alta, média ou baixa confiança. Então há média confiança de que tendências, em intensidade e frequência, de alguns extremos climáticos e meteorológicos foram detectados no período, basicamente, desde 1950. Então isso não parece uma catástrofe climática, ao menos não para mim. Mas, com todo o debate que está acontecendo, parece que o mundo está acabando, e esse é o propósito do climatismo.

O propósito do climatismo é acabar com o debate político democrático normal. Os divulgadores dessa ideologia desejam criar um “equivalente moral à guerra”, para impor políticas e restrições que contrariam liberdades fundamentais. Como os brasileiros, os brexiters e a maioria dos americanos, entre outros, não estão mais comprando as mentiras tradicionais do sistema, o esquema de poder tradicional em seu embrulho normal, agora o sistema está tentando mudar o embrulho e pintá-lo com cores mais dramáticas. Eles querem que acreditemos que estamos em uma guerra pela sobrevivência do planeta, e que todo sacrifício é válido – incluindo o sacrifício da liberdade de expressão, que provavelmente é o objetivo principal do sistema, já que eles desejam, acima de tudo, controlar o discurso, como vimos.

Após todas as experiências terríveis com o socialismo no mundo, como se pode sonhar com a imposição do controle socialista da economia em um país como os Estados Unidos, por exemplo? Nunca por meio do debate democrático normal, é claro. Somente por meio de uma declaração de emergência. “Crise climática!”, eles gritam. Como pode alguém, em tempo de paz, sonhar em infringir a soberania de um país como o Brasil com relação ao seu próprio território? Repetindo “a Amazônia está queimando”, uma e outra vez. Em razão da ideologia, desse grito primário de crise climática, “vamos salvar o planeta”.

O “clima” tornou-se não um conceito científico; transformou-se em um “encerrador de debates”. Uma palavra que, quando pronunciada, termina o debate e te dá a vitória sem que você precise provar que está certo.

O sistema apontou as baterias das mudanças climáticas na direção do presidente Trump e do presidente Bolsonaro, porque são eles, principalmente, que lutam contra o sistema. O Brasil está fora do pacto globalista. Os Estados Unidos estão fora do pacto globalista. Então eles nos perseguem, tentando reduzir-nos e levar-nos de volta ao pacto.

No caso do Brasil, o raciocínio é o seguinte: há uma crise climática; essa crise climática catastrófica decorre do aquecimento global; o aquecimento global decorre das emissões de CO2; as emissões de CO2 decorrem do desmatamento; o desmatamento decorre da queima da Amazônia pelo Brasil; então “vamos invadir o Brasil”, como foi proposto em um artigo na Foreign Policy. É claro, tudo é bom e tudo é aconselhável contra um país que está destruindo o planeta. Guerra, sanções comerciais, o que mais?

O fato é que muitos, se não todos os passos desse raciocínio são errados ou ao menos questionáveis. O Brasil não está queimando a floresta. Os incêndios estão na média. O desmatamento é responsável por apenas cerca de 11% das emissões de CO2 do mundo, e o desmatamento brasileiro é responsável por menos de 2% das emissões de CO2 do mundo. Mesmo se presumirmos que emissões de CO2 controlem diretamente a temperatura, o que não é mostrado pelos modelos computacionais, o Brasil não é o culpado. E mesmo se o CO2 controlasse diretamente as emissões, não parece haver uma crise climática, não segundo o relatório do IPCC. Mas não importa. A palavra “clima” foi pronunciada, e o debate foi silenciado. Agora apenas os mestres do discurso podem falar. “Calem-se”, eles explicaram (essa não é uma expressão minha; eu a li em algum lugar).

O sistema ainda consegue manter muitas pessoas em um tipo de hipnose coletiva.O sistema mostra a palavra “nação”, e a multidão hipnotizada responde: “não, não; mau; Hitler”. O mesmo sistema mostra a palavra “migração”, e a multidão responde: “bom, bom; diversidade”, sem a possibilidade de discussão sobre os prós e contras da migração e os prós e contras do nacionalismo. Mas isso é impossível de discutir. Somente as reações automáticas são permitidas.

O sistema mostra a foto de uma floresta em chamas, uma foto de 20 anos atrás, mas que ele finge ser o Brasil hoje, e o povo reage: “o Brasil é mau, mau; pulmões do mundo; vamos invadi-lo”. É como se estivéssemos vivendo em uma espécie de apocalipse zumbi em que não se pode discutir as coisas.

O sistema pode treinar cada vez menos pessoas para responder automaticamente dessa forma em hipnose, mas eles ainda têm a mídia (desculpe a mídia aqui; não estou falando de vocês; a mídia em geral). E a mídia ainda é uma câmara de eco influenciando outras mídias e alguns tomadores de decisão – alguns importantes tomadores de decisão, incluindo alguns tomadores de decisão corporativos, que podem tomar decisões completamente erradas, como ameaças sem sentido de boicotes ao Brasil, por exemplo, porque estão hipnotizados. Porque muitos tomadores de decisão não reagem a pessoas reais; eles reagem à mídia e acham que a mídia transmite a voz do povo.

O próprio direito internacional está seriamente ameaçado quando um líder tuíta uma foto de 20 anos atrás e diz que é a Amazônia queimando agora, e a câmara de eco imediatamente começa a clamar pela derrubada da soberania do Brasil, ou por retaliações contra nossos produtos, sem base em nenhum tratado ou instrumento. Parece-me uma justiça revolucionária estalinista. Acusar, executar. Mas vocês podem dizer: “onde está a justiça? Onde está o estado de direito?” As pessoas dizem: “crise climática, cale-se”. É o princípio da precaução, de certa forma. Acho que Stalin e outros ditadores utilizaram muito bem o princípio da precaução: eles apenas matavam muitas pessoas sem se preocuparem se elas realmente apresentavam uma ameaça a seu sistema. Acho que esse é um bom uso do sistema de precaução.

Com base nesse mesmo tipo de lógica estalinista, a mídia e alguns políticos estão começando a demonizar a carne, por exemplo. Sugeriu-se que deveríamos recorrer ao canibalismo para salvar o planeta ao não consumir carne bovina, que “destrói a Amazônia”, em sua narrativa. Chegamos realmente a esse ponto? Eles querem que todos comamos Soylent Green? Após utilizar a mudança do clima para controlar o fornecimento de energia, limitar a soberania dos países, eles querem utilizá-la para controlar o que as pessoas comem? O que é mais invasivo e mais “eficiente” do que isso? Onde está a dignidade humana, onde está o sentido senso de justiça, onde está o senso comum?

O psicanalista Jacques Lacan disse que: “se Deus não existe, nada é permitido”. É o oposto da citação tradicional de Dostoiévski, em que ele diz que: “se Deus não existe, tudo é permitido” (o que o próprio livro, Crime e Castigo, mostra que não é verdade). Mas Lacan disse “se Deus não existe, nada é permitido”. E é isso que estamos vendo. Remova a dimensão simbólica do homem (não quero dizer que Deus é um símbolo, mas, de certa forma você precisa da dimensão simbólica para se relacionar com Deus e para perceber a ideia de Deus, e a realidade de Deus), então, remova a dimensão simbólica do homem, na qual creio que Deus habita, e nem mais comer carne é permitido.

A destruição da dimensão simbólica é um velho objetivo do marxismo, como vimos, ou como eu tentei sugerir. Primeiro, eles tentaram isso ao reduzir o homem a um animal econômico, o reductio ad oeconomicum. Agora eles têm outra técnica, ainda mais poderosa, o reductio ad climaticum. E, juntos, graças à “hegemonia”, o conceito ao qual todas as “causas” estão ligadas, as bandeiras da esquerda, quando você aceita esse tipo de reductio ad climaticum, vêm junto a ideologia de gênero e a oicofobia, os outros instrumentos do globalismo. Então, tudo o que você puder utilizar, basicamente, para dividir o povo e subjugar o povo é bom.

É curioso, porque, pelo menos por algum tempo, em teoria a esquerda quis unificar o povo, ou assim diziam. Mas agora perceberam que o povo está contra eles. E assim tentam fragmentar o povo, destruir a unidade da nação, destruir a família e destruir a unidade do próprio pensamento humano.

No passado, havia problemas sociais. Ainda há problemas sociais. Mas a história mostrou que eles poderiam ser resolvidos sem recurso à ditadura estalinista, como foi o caso na maioria dos países, especialmente nos países desenvolvidos, mas também em países em desenvolvimento. O que era a questão social? Não era o móvel real para as pessoas que desejavam estabelecer o socialismo ou o comunismo. A questão social, problemas sociais, injustiça social era apenas um pretexto para a ditadura. Agora fazem, ou tentam fazer, o mesmo com o clima. Você não precisa parar toda a sua economia para reduzir emissões, mesmo supondo que as emissões controlem a temperatura. Na verdade, os Estados Unidos são o único país desenvolvido que está reduzindo emissões, embora não intencionalmente, apenas em decorrência do avanço tecnológico. Por alguma razão, ou por razões que pensamos entender, as soluções mais drásticas são vendidas, como se fossem as únicas que pudessem enfrentar o desafio.

Então, o que acontece é que o Brasil está sendo ”alterizado”, para utilizar o termo querido a algum pensamento de esquerda. Estamos nos tornando, juntamente com o presidente Trump, o presidente Bolsonaro está se tornando um grande outro, aquele que é lícito odiar. Outra marca desse tipo de ideologia esquerdista, eles sempre precisam desse tipo de grande inimigo. Estamos sendo alterizados porque estamos tentando nos afastar do pacto globalista. Para nós, que nos importamos com esses assuntos, podemos dizer que a principal coisa que está em jogo agora é a dignidade do ser humano, e não outra coisa. Hoje, em razão do modo em que eles usam o climatismo como seu principal instrumento de luta, a Amazônia é o marco zero da luta contra o globalismo e para a recuperação do ser humano em sua completude.

Muito obrigado.

Perguntas e respostas

Mediadora: Muito obrigado por essas observações introspectivas e profundamente filosóficas. Eu queria ter tido papel e caneta comigo para tomar notas, mas seguramente assistirei o vídeo deste evento novamente. Temos aproximadamente quinze minutos para perguntas e respostas. Temos alguns microfones circulando. Então, se alguém... esperem até eu chama-los e, se os senhores puderem, identifiquem-se com seus nomes e a organização à qual pertencem. E, por favor, mantenham suas perguntas em formato de pergunta. A única pessoa a fazer comentários aqui será o ministro das Relações Exteriores. Obrigado. Deixe-me ver, se vocês puderem levantar as mãos quando tiverem perguntas. Temos um senhor aqui... membro da mídia, acho que teremos alguns minutos ao fim do evento. Mas, bem, eu o chamei primeiro, então lhe darei uma oportunidade. Você pode esperar o microfone? Temos um microfone chegando aí. Muito obrigada.

Luiz Fernando Silva Pinto: Ministro, o senhor disse duas coisas muito raras de se ouvir em apresentações como esta. Uma é a dimensão simbólica. A outra é a ditadura do clima, ou climatismo. O senhor... o senhor poderia explicar por que decidiu incluir esses tópicos nesta apresentação e poderia explicar um pouco mais sobre eles? Obrigado.

Ministro: É claro. Obrigado, Luiz Fernando. Bem, eu sempre acho importante tentar ir além do superficial e tentar explorar a “infraestrutura” intelectual e espiritual, por assim dizer, que existe sob os acontecimentos econômicos e políticos. Então, eu tento sugerir um meio de pesquisa; eu não creio que eu tenha a verdade sobre qualquer coisa. É apenas uma sugestão de tentar observar um tipo de dimensão mais profunda. O que eu acho é que o ser humano é governado por seu pensamento, chame-o de interior, chame-o de alma, ou espírito, algo assim, ou raciocínio, e é aí que as coisas acontecem, não é? Então os fenômenos econômicos, políticos, são consequências do que as pessoas pensam. Creio que seja basicamente isso. Então, se as pessoas, acho que é o caso hoje em dia, têm tanta dificuldade (não creio que seja o caso das pessoas aqui, eu sei, mas na cultura como um todo), as pessoas têm tanta dificuldade de pensar além da realidade imediata, têm tanta dificuldade de analisar as coisas de um jeito não emocional, e reagem imediatamente sem raciocinar, sem buscar informações sobre impulsos que recebem, acho que temos um problema e que devemos analisá-lo, e tento formular essa questão como a perda da faculdade simbólica.

E, sobre o clima, qual é a expressão? “Ditadura do clima”, eu utilizei essa expressão? Basicamente, como eu disse, tento colocar, quero distinguir o que é o fenômeno da mudança do clima e o modo como deveríamos estudá-la, o que eu acho que deve ser feito cientificamente, analisando-se o valor da teoria de que ela é basicamente controlada pelas emissões de CO2, de cujo fato, de acordo com meus estudos, não sendo um cientista, acho que há falta de evidências. Mas as pessoas acham que há muitas evidências. Eu acho que é uma questão de debate científico, mas meu problema não é com isso; é com o uso político da mudança do clima e com o alarmismo climático. E o que vemos hoje no debate político em todo o mundo parece-me uma questão de ideologia, é uma questão de utilizar a impressão de um fenômeno para atingir alguns objetivos políticos, sem retornar ao estudo científico real, sereno e calmo do fenômeno. E eu acho que, no passado, houve a ação de, sim, talvez de ditaduras, quando você não percebe a realidade porque não tem a dimensão simbólica, mas você apenas reage a impulsos e deixa-se levar para decisões equivocadas, porque você não analisa as coisas. É basicamente isso.

Mediadora: Muito bem, vamos a este lado da sala... o cavalheiro na frente... se o senhor puder apenas esperar o microfone... obrigada.

Alfonso Aguilar: Obrigado, senhor ministro, por sua apresentação. [Sou] Alfonso Aguilar, International Human Rights Group. Uma das coisas frustrantes quanto às críticas da esquerda a novos líderes populistas como o presidente Bolsonaro, o presidente Trump, é esse ataque imediato de que eles são autocráticos; algumas vezes ainda dizem, usam mesmo a palavra fascista. Como o senhor disse em sua apresentação, o presidente Bolsonaro, assim como o presidente Trump, acolheram políticas econômicas liberais que pedem menor intervenção governamental. Ironicamente, os críticos propõem políticas que pediriam maior intervenção na vida das pessoas. Então, de certa forma, o que pedem é mais autocrático que o proposto pelos novos líderes populistas. O senhor poderia comentar um pouco sobre isso?

Ministro: Sim, claro. Obrigado, Alfonso. Uma maneira de se abordar essa questão é aquele tradicional dogma, ou conselho, neste caso não estalinista, mas leninista, aos seus seguidores, de que se deve criticar seus inimigos naquilo que você faz e chamar seus inimigos daquilo que você é. Então acho que a calúnia de autocracia é basicamente isso, e acho que você está totalmente correto: como se pode ser autocrático quando se é favorável a uma maior abertura? Como se pode ser autocrático quando (as pessoas que conhecem o Brasil aqui sabem) quando nunca houve tanta independência entre os três poderes, e o Executivo é apenas um deles? E tentamos navegar 100% dentro da constituição para tentar fazer aquilo que o presidente foi eleito para fazer, e sua equipe foi escolhida para auxiliá-lo. É muito difícil argumentar contra isso. Mas aí chegamos à questão das palavras sem realidade por trás delas. Apenas dizemos a palavra “autocrático”, e as pessoas reagem a isso, “sim, é autocrático”. Certo, mas prove, ou pelo menos dê-me um indício de por que “é autocrático”, não é? Algumas vezes há algo vago, mas nunca parece haver embasamento para as pessoas que nos chamam de autocratas. Então acho que voltamos à questão do uso incorreto de palavras, o uso de palavras como ferramentas para aquele tipo de hipnose coletiva, e não ferramentas para o exame e estudo da realidade.

Mediadora: Certo, temos uma pergunta aqui no lado esquerdo da sala, obrigada!

Isabela Patriota: Olá, obrigada, ministro! Meu nome é Isabela Patriota, sou aluna de doutorado na Universidade de São Paulo. Eu gostaria de saber se tratar a mudanças do clima como ideologia, ou em parte negá-la, não dificultaria o comércio internacional da carne brasileira nessa situação.

Ministro: Então, tudo o que eu disse, ou a maior parte, ou uma boa parte do que eu disse foi uma tentativa de explicar por que eu considero que o fenômeno da mudança do clima foi capturado para propósitos políticos. E eu acho que essa pergunta aponta exatamente nesse sentido. Creio que, para impor todos os tipos de controle que as pessoas às vezes defendem em razão de uma percepção de crise climática, precisa-se de algum tipo de evidência contundente para isso, correto? Se você diz “Ah, nosso país está em guerra, e nós precisamos infringir o estado de direito, precisamos aprisionar potenciais espiões”, tudo bem, isso é defensável, mas você pelo menos precisa ver a guerra em algum lugar! Mas agora, nós simplesmente... bom, é como se você dissesse, “Ah, existe uma guerra, e, bem, vamos aprisionar todos que sejam ameaças”, mas onde está a guerra? Ninguém viu os tiros! (apenas para exagerar um pouco). É, infelizmente, o comércio pode ser uma vítima desse tipo de ideologia. Mas, por exemplo, países como a Alemanha são muito sensatos, e houve muito bom senso no diálogo que tivemos com eles desde que esse episódio começou; eles querem negociar conosco, nós queremos negociar com eles. Acredito que eles tenham solicitado à Comissão Europeia que realize um estudo sobre o real impacto, ou a real dimensão dos incêndios na Amazônia, e este mostrou que eles estão basicamente na média: um pouco mais de fogo que no ano passado e muito menos do que há alguns anos atrás. Então, acho que é um bom exemplo de não ideologia, de olhar o problema e a situação e tentar examiná-los de acordo com os dados da realidade e não apenas tirar conclusões precipitadas e dizer, “Ah, o Brasil está destruindo as florestas, então vamos prejudicar o Brasil!” Creio que seja uma verdadeira questão de realidade contra ideologia aqui. Obrigado.

Mediadora: Há tempo para mais uma questão breve. A mulher aqui com o blazer preto, obrigada!

Claudia Trevisan: Olá, ministro, como vai o senhor? Claudia Trevisan, sou membro não residente do Instituto de Política Externa da Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS). Eu gostaria de conversar sobre um assunto que é bastante discutido nesta cidade, que é a China. Na sua visão dessa luta pela civilização ocidental, onde o senhor vê a China? E uma pergunta mais concreta é o que pode ser esperado da visita do presidente Bolsonaro a Pequim ainda neste ano? Obrigado.

Ministro: Obrigado, Claudia, é bom vê-la novamente. Eu acho que a China é um país que navegou a globalização muito bem, isso é mérito total deles – creio que eles sejam o país que mais aproveitou a globalização e tornou-se uma nação muito mais próspera graças a todas essas mudanças econômicas, e isso é parte da realidade agora. É claro, isso criou alguns desequilíbrios – se este é o caso, eu não quero comentar sobre a política comercial dos EUA, mas parece ser o caso do ponto de vista estadunidense – e não é, creio eu, culpa da China, mas é um problema para alguns, neste caso, nos EUA. Então, basicamente eu vejo de forma bem prática, para o Brasil está sendo diferente, o Brasil beneficiou-se muito do comércio com a China; há algumas desvantagens em termos de alguns setores em que perdemos para a concorrência chinesa, mas nada contra a China, isso é apenas um reconhecimento de seus êxitos e de algumas de nossas falhas. E agora estamos tentando corrigir esses desequilíbrios do nosso lado. E nossa visita próxima à China é parte do esforço para resolver essas questões, para obter mais acesso ao mercado chinês em setores nos quais não estamos presentes, e para negociar, da mesma forma, com o interesse que a China tem no Brasil. O que queremos é realizar um conjunto normal de negociações no qual cada um tem suas cartas e tentamos chegar a um resultado benéfico comum. Temos a sensação de que, no passado, o Brasil não negociou bem com a China, não utilizamos bem nossas cartas – e, novamente, não foi culpa da China, foi culpa de nossos negociadores, e agora estamos tentando construir, manter o que temos, avançar a partir desse ponto. Então, não vejo de forma nenhuma esse tipo de relação adversarial com a China, creio que seja uma relação cooperativa que pode trazer benefícios mútuos. A propósito, a China, por meio de seu encarregado de negócios em Brasília, durante toda essa agitação quanto à Amazônia, expressou muito claramente seu apoio à soberania brasileira. Isso foi muito importante para nós, e nós reconhecemos isso. Então essa é basicamente nossa abordagem. Obrigado.

Mediadora: Perfeito; e, com isso, ministro das Relações Exteriores, obrigado! Foi uma honra e um privilégio ouvi-lo hoje. Obrigado!

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* Tradução não oficial do discurso do ministro das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Ernesto Araújo, na Heritage Foundation em Washington, D.C., em 11 de setembro de 2019. Fonte: <https://www.youtube.com/watch?v=i2PDyry8F_M>.

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