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Página inicial > Notícias > Nova Política Externa > APRESENTAÇÃO DO MINISTRO DE ESTADO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, EMBAIXADOR ERNESTO ARAÚJO, NA FORMATURA DA TURMA DO INSTITUTO RIO BRANCO - BRASÍLIA, 3 DE MAIO DE 2019
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Apresentação do ministro de Estado das Relações Exteriores, embaixador Ernesto Araújo, na formatura do Instituto Rio Branco – Brasília, 3 de maio de 2019*

 

Senhor presidente da República, Jair Bolsonaro, senhor vice-presidente da República, Hamilton Mourão, senhores ministros, senhores senadores, senhores deputados, senhores comandantes de força, senhores embaixadores, senhor secretário-geral, senhora diretora do Instituto Rio Branco, senhora paraninfa, senhores chefes da casa, demais autoridades, colegas, amigos, caros formandos,

Em primeiro lugar, estou extremamente grato em nome de todos aqui por honrarem com sua presença esta casa e todos os diplomatas brasileiros. Neste dia em que a nossa casa, em que a nossa carreira celebra sua continuidade e, principalmente, sua renovação, com a formatura da Turma Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. Neste momento, lutamos justamente pela renovação, pela renovação do Brasil. Muito obrigado, senhor presidente, por nos admitir a nós diplomatas sob o seu comando nessa luta. Nenhum presidente da República no período de quase três décadas em que tenho tido a felicidade de trabalhar no Serviço Exterior, nenhum valorizou mais o papel do Itamaraty do que o senhor. Nenhum teve uma visão mais clara do que a sua sobre o papel da Política Externa executada pelo Itamaraty em projeto de grande transformação nacional. Isso, para nós que estamos aqui hoje, constitui, naturalmente, um privilégio e, ao mesmo tempo, uma enorme responsabilidade. Seremos dignos dessa confiança e dessa responsabilidade.

Recentemente o senhor presidente mandou uma mensagem por Whatsapp, aquela que mandou a todos os ministros. E, aliás, é interessante porque a oradora da turma mencionava que a turma do Instituto Rio Branco que agora se forma se tornou uma família. E eu acho que posso dizer, junto com os colegas de Gabinete que estão aqui, que a equipe de ministros que o senhor formou, presidente, está se tornando também uma família. E temos inclusive o privilégio de trocar muitas vezes comentários via Whatsapp. Isso acaba sendo uma das maiores novidades e inovações do seu governo, e que enfatiza e reforça esse sentimento de responsabilidade conjunta. Mas eu dizia que o Senhor mandou uma mensagem aos ministros dizendo: “Enquanto não faltar água no mar, não deixaremos de lutar”. E fique certo, presidente, de que esse é o sentimento que nos anima. Certamente, esse é o sentimento que me anima e que eu gostaria de transmitir aqui a essa turma que agora se forma. Queria dizer aos formandos que, há vinte e sete anos, estava aí, exatamente onde vocês estão, e agora estou aqui, mas continuo aí, continuo me sentindo aí, continuo sentindo o mesmo, o mesmo entusiasmo, a mesma perplexidade, no sentido positivo de, de repente, estar no meio de uma entidade, de uma instituição que tem a história que tem e que tem o futuro que tem. Uma sensação que tenho certeza que vocês não perderão e que vai animá-los ao longo da vida.

Os diplomatas brasileiros devem servir o Itamaraty, mas devem, sobretudo, servir o Brasil, nunca podemos perder de vista esse horizonte último. O Itamaraty é um extraordinário instrumento da pátria, e somente florescerá se a pátria florescer. Em segundo lugar, quero dizer que a diplomacia é um método, não é um conteúdo, a diplomacia é um ofício, uma arte. Podemos equipará-la, por exemplo, à arte da navegação. A navegação é indispensável para chegar a algum lugar, mas não determina para onde ir. Há que saber para onde se quer ir e utilizar nesse caso, nesse exemplo, a arte da navegação, para lá chegar. Do mesmo modo, colocados diante dos desafios da realidade, dos desafios de posicionar o Brasil no mundo, da maneira que melhor corresponda ao nosso projeto de transformação, e perguntados sobre o que queremos, não podemos responder “queremos diplomacia”. Diplomacia não desenha um rumo, diplomacia não proporciona um objetivo. Precisamos formular a noção dos objetivos e para eles apontar. Isso significa, antes de mais nada, pensar. Assim, o terceiro apelo que eu lhes faço é que não deixem de pensar, que não terceirizem o seu pensamento aos meios de comunicação, nem a ninguém, que diante de cada situação não puxem aquela ficha básica previamente gerada pelo discurso dominante, não tenham medo de correlacionar fatos. Hoje nós vivemos num círculo fechado, onde parece que qualquer tentativa de correlacionar fatos é imediatamente chamada de teoria da conspiração. Rompam esse círculo.

Há vários anos, uns quinze anos, eu escrevi uma pequena obra de ficção, não sei se vou publicar um dia, mas vou fazer aqui um pequeno trailer. Se passa em um mundo do futuro que é dominado por uma casta de controladores do discurso, chamados os tautólogos. Os tautólogos, evidentemente, praticam a tautologia. E sua função é evitar qualquer expressão do pensamento que procure dizer algo além do único sentido aprovado. Nesse mundo existe um único e último líder rebelde que, segundo a lenda, ainda ousa emitir juízos sintéticos, isso é, expressões que procurem afirmar algo além daquilo que está em seus próprios termos, como seria por exemplo esta frase de Guimarães Rosa, que eu gosto muito: “Tudo é a ponta de um mistério, inclusive os fatos”. Naquele mundo dos tautólogos não se poderia dizer isso, nem se poderia dizer praticamente nada. Eu nunca imaginei que nós fôssemos chegar tão perto de viver no mundo dos tautólogos, mas acho que chegamos. Mas ainda não estamos inteiramente lá. Então eu peço, faço um apelo a vocês, formandos, que não se sujeitem aos tautólogos. Não deixem de sentir também. Entre aquilo que apaga seu coração e aquilo que o acende, sugiro que optem por essa segunda via. Política externa não é lugar para sentimentos, isso é o que dizem os tautólogos. E acrescento aqui também algo que acabo de ouvir da oradora da turma: “Não nos percamos em medos nem hesitações”.

Outro dia, senhor presidente, o senhor nos dizia também a alguns ministros e outros funcionários que o acompanhávamos na ocasião: “Nós temos uma oportunidade única de mudar o Brasil”. Eu tomei essas palavras não somente como uma pertinente avaliação do quadro político, mas como um chamamento, como o toque de um clarim, como uma missão. Eu conclamo aqui todos dessa casa a participarem dessa missão, como um compromisso existencial profundo, mudar o Brasil, transformar o Brasil na grande nação que nós somos chamados a ser. Brasil, escuta hoje esse clarim que o conclama a um grande destino histórico. E o que nós faremos diante desse grande chamado? E o que nós diremos quando nossos netos perguntarem: “O que vocês estavam fazendo em 2019, quando tiveram oportunidade de mudar o Brasil? O que vocês estavam fazendo em 2019, enquanto esse Brasil em transformação teve a oportunidade de contribuir para transformar o mundo?”.

Estamos trabalhando. Aqui no Itamaraty, estamos trabalhando pelo crescimento econômico, pela capacitação tecnológica, pela segurança, pela democracia, pela soberania nacional, pela dignidade humana e pelos valores fundamentais do povo brasileiro. Esse é o nosso horizonte. Todas as ações que vínhamos tomando nesses últimos meses apontam de maneira coerente no sentido dessas prioridades. Estamos avançando em todas elas. Fechamos acordos com grandes economias e grandes centros tecnológicos do mundo e estamos a ponto de fechar outros. Recuperamos o processo de integração regional; reavivamos parcerias essenciais para o reforço de nossas defesas e de nossa capacidade de enfrentar o crime; ajudamos de maneira decisiva a criar uma marcha irreversível rumo à democracia na Venezuela e em toda nossa região; defendemos o direito à vida nas Nações Unidas; promovemos a liberdade econômica, ao engajar-nos, por exemplo, no processo de reformas da OMC; levantamos a voz pela liberdade religiosa e pela liberdade de expressão. Nossos interesses unidos aos nossos ideais, somente assim seremos alguém no mundo.

Eu gostaria de deter-me um pouco, por um momento, em um tema específico, o tema da Venezuela. O mundo todo tem hoje os olhos postos na Venezuela, porque ali se dá um combate entre a democracia e a opressão, entre a verdade e o cinismo. O ressurgimento da Venezuela em torno de uma esperança de democracia, configurada pelo seu presidente encarregado, se deve fundamentalmente a um esforço diplomático democrático, a um esforço dos países democráticos das Américas, reunidos no grupo de Lima. O Brasil participou e participa intensamente desse esforço, decisivamente desde os primeiros dias deste governo. Este governo se identificou com a causa da democracia e da verdade na Venezuela. Isso está claríssimo, e é muito triste ver pessoas no Brasil torcendo pela tirania, pelo cinismo, apenas para ver este governo se dar mal. Absoluta falta de ideais diante do tema Venezuela, às vezes, é algo que me espanta, por parte da imprensa e de comentaristas sobretudo, mas não há de ser nada.

Essa nossa política externa, isso eu garanto, não recua diante do primeiro obstáculo nem da primeira crítica, nem da segunda, nem da terceira, nem da milionésima. O que nos move é uma convicção muito simples e profunda. Estamos fazendo o que é certo. O que nos move é a esperança dos brasileiros e dos nossos vizinhos. Ainda ontem eu escutava de uma ativista pró-democracia de um país sul-americano a seguinte frase: “o governo Bolsonaro é a grande esperança da democracia em toda América do Sul, estamos rezando todo os dias pelo seu presidente”. Isso não é a avaliação de um especialista de Relações Internacionais que poderia aparecer na The Economist ou na Foreign Affairs ou em algum periódico brasileiro. Isso é um grito rasgado de fé e de esperança de alguém que sente, na carne, os efeitos da tirania, de alguém que anseia pela liberdade, não como um modelo teórico em um seminário de sociologia, mas a liberdade como o dom da vida. Estamos construindo nossa política externa a partir desse compromisso com a democracia na nossa região, desse compromisso com a liberdade, liberdade de carne e osso. Somente a liberdade, bem fundamental do ser humano, dará sentido aos nossos demais objetivos.

Senhor presidente, eu acho que se perguntarem a qualquer brasileiro se quer um novo Brasil, um Brasil mais próspero e feliz, essa pessoa dirá imediatamente que sim. Se quer um país transformado, dirá que sim. Se quer um Brasil diferente do que era nos últimos anos e décadas, exclamará, sem pestanejar, que sim. Mas se perguntarmos se querem uma Política Externa diferente, muitos dirão: “Ah não, aí não. Queremos uma Política Externa igualzinha”. Igual, igual à dos últimos 40 anos, esse período que gerou estagnação econômica, desemprego, desindustrialização, corrupção galopante, criminalidade, ineficiência, colapso da educação, dos serviços públicos, tudo isso, queremos mais do mesmo? Não. Não teremos um Brasil diferente com uma Política Externa igual, pois a Política Externa é um terreno essencial para o avanço da nação. Precisamos de uma Política Externa que escape ao mundo repetitivo e fechado dos tautólogos, precisamos de uma Política Externa que ajude a mudar o Brasil, simplesmente isso.

Bem, hoje também é um dia de homenagens, sobretudo um dia de homenagens. Queria homenagear inicialmente todos os professores do Instituto Rio Branco que formaram essa turma, e continuam formando as novas turmas, alguns dos quais inclusive foram meus professores tantos anos atrás e a quem tanto devo. Devo homenagear a diretora do Instituto Rio Branco, embaixadora Gisela Padovan, pelo seu trabalho na frente desta instituição de referência. Quero homenagear os familiares dos formandos, aconselhando que se preparem, porque, se os seus filhos, maridos, esposas, seus pais que agora se formam conseguirem, nessa luta, nesta aventura a qual os convoco nem tudo serão rosas para vocês familiares. Vocês sofrerão ao lado deles, e eles somente suportarão a luta se tiverem vocês ao seu lado, como eu tenho o privilégio de ter ao meu lado a minha família, especialmente a minha mulher, Maria Eduarda, aqui presente, sem cujo amor e apoio eu não estaria aqui. E não teria forças para a imensa tarefa que o senhor me atribuiu, senhor presidente. Quero homenagear a paraninfa, embaixadora Eugenia Barthelmess, com seu espirito de dedicação, sua grande capacidade de trabalho, seu patriotismo e sua integridade e qualidades que bem conheço e admiro, desde que convivemos em turmas contiguas no Instituto Rio Branco.

Quero homenagear e enaltecer a figura da patrona da turma, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, pessoa de extraordinária coragem e princípios, que salvou inúmeros judeus durante a Segunda Guerra Mundial. É uma belíssima escolha de patrona. Mostra a consciência dessa turma de que a diplomacia não significa ficar em cima do muro, diplomacia não significa ficar assistindo aos grandes embates da humanidade, esperando para ver quem ganha e aí aderir ao vencedor. Diplomacia precisa ter sangue nas veias. E, com Aracy, quero homenagear todos os combatentes da liberdade e todos os que sofrem perseguição na Venezuela e em todos os lugares do mundo. Falando de Aracy, este também é o momento de anunciar que, em breve, o Itamaraty estará apresentando ao presidente a proposta de criação do Instituto Guimarães Rosa, entidade que será encarregada de promover a língua, a cultura e a produção criativa do Brasil no exterior, cujo nome homenageia justamente o marido de Aracy, o diplomata e escritor João Guimarães Rosa, cuja inesgotável aventura criadora nos recorda também que a diplomacia é, entre outras coisas, um projeto literário no mais alto sentido e simboliza a permanente reinvenção e redescoberta das nossas raízes e da nossa alma.

Eu gostaria de encerrar, se me permitem, citando o Evangelho. Quando diz: “a pedra que os construtores rejeitaram, essa pedra tornou-se a pedra angular do edifício”. De fato, a pedra que os órgãos de imprensa rejeitaram e a mídia rejeitou, e a pedra que os intelectuais rejeitaram, a pedra que tantos artistas rejeitaram, a pedra que tantos autoproclamados especialistas rejeitaram, essa pedra tornou-se a pedra angular do edifício, o edifício de um novo Brasil. Esse raio vívido de amor e de esperança que à terra desce. Senhor presidente, nós aqui do Itamaraty, formandos e formados, modernos e antigos, homens e mulheres, todos nós estamos prontos para, a partir da sua orientação e com base na pedra angular rejeitada por tantos, mas escolhida pelo povo brasileiro, ajudá-lo a construir esse novo Brasil.

Muito obrigado.

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Fonte: Ministério das Relações Exteriores

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