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ANTÔNIO FRANCISCO AZEREDO DA SILVEIRA

 

A melhor tradição do Itamaraty é saber renovar-se

Senhor Embaixador Mario Gibson Barboza, Senhoras e Senhores Meus colegas do Itamaraty; diplomatas, funcionários administrativos e pessoal auxiliar,

Sejam minhas primeiras palavras de agradecimento ao Senhor Presidente da República, a quem prometo dedicação integral na tarefa de assisti-lo na formulação e execução da política externa do Brasil. Servir assim será o modo de corresponder ò confiança da escolha que tomo com desvanecimento, pois não pode haver, para funcionário da carreira, responsabilidade maior e mais grata do que a de ocupar o cargo máximo da diplomacia brasileira. Por outro lado, desejo assegurar que recebo a pasta das Relações Exteriores com humildade, mas também com orgulho das tradições desta Casa, vivamente preservadas na gestão de Vossa Excelência, Senhor Embaixador Mario Gibson Barboza. Os resultados da colaboração, construtiva e harmônica, que Vossa Excelência soube dar ao Terceiro Governo da Revolução, demonstram que, nos momentos decisivos da evolução nacional, o Itamaraty sempre soube realizar e continuará realizando uma política que reflita adequadamente os mais legítimos interesses do Brasil. A Vossa Excelência e a seus colaboradores o país saberá sempre agradecer os relevantes serviços prestados no campo das relações internacionais.

Do ponto de vista. pessoal, Vossa Excelência, com as palavras que acaba de proferir, comoveu-me profundamente. Muito mais do que o reflexo dos meus méritos, elas são a imagem do Chefe compreensivo, competente e humano, com que tive a felicidade de contar nestes últimos anos de minha carreira. Essa imagem vinha precedida da larga amizade e do identidade de pontos de vista que sempre nos uniu, pessoal e profissionalmente. O Itamaraty o vê partir com carinho e admiração. Nesta carreira, o que passa o bastão de comando o faz com a mesma satisfação e sentido de responsabilidade daquele que o recebe.

O desafio

Acredita-se, pelas próprias circunstâncias de seu ofício, que o diplomata esteja exposto ao risco de afastar-se de suas raízes nacionais, tornando-se mero espectador da diversidade do mundo. Mas este não é o caso da diplomacia de um país que deve afirmar-se e que, para fazê-lo, precisa vencer toda sorte de obstáculos e incompreensões.

Nessas condições, a vivência no exterior não constitui motivo de descaracterização. Ao contrário, colocado na linha avançada da defesa do interesse nacional e com a nítida visão de conjunto que a distância pode proporcionar, o diplomata carrega consigo, permanentemente, a imagem de um país em marcha, sem distorções casuísticas ou conjunturais. Por isso mesmo, creio que, na origem de toda ação válida da Chancelaria brasileira, deve estar presente um esforço de percepção lúcida de tudo o que compõe o nosso país e a consciência de que o Brasil não se contém apenas no inventário de suas dimensões presentes, mas antes se completa na perspectiva fecunda da superação do que é hoje.

Inspirar-se no passado, viver corajosamente o presente e projetar-se no futuro — este é o desafio constante do Brasil e, portanto, do Itamaraty. Uma Chancelaria não é torre de marfim, da qual se possa observar o mundo passivamente. Constitui o principal canal de vinculação de uma nação com outras nações e um dos pilares básicos da segurança do país. Tenho, portanto, plena consciência de que, à medida que se multiplicam as dimensões do Brasil, crescem paralelamente as exigências de operatividade e eficácia de cada um dos órgãos do Governo. Nesta seqüência de necessidades que se multiplicam, o Itamaraty precisa estar em condições de movimentar-se com velocidade e fluidez, a fim de ampliar, cada vez mais, a presença do Brasil no exterior. Por isso, tem feito e continuará a fazer ajustamentos sistemáticos na sua capacidade de atuar. A melhor

tradição do Itamaraty é saber renovar-se.

Tarefa Diplomática

A integração dos interesses nacionais e dos interesses externos produz três áreas de ação para a diplomacia: a da coincidência, a da negociação e a da divergência. Explicitar as convergências tácitas, maximizar o produto das negociações e procurar criar as condições para a dissolução dos impasses: esta é a tarefa da diplomacia. A este modelo devem ajustar-se as relações bilaterais e as atuações nos planos regionais e multilaterais,

pois a política externa do país é um processo consequente e global. Daí ser indispensável sintonizar adequadamente esses três níveis.

Devo afirmar que a diplomacia brasileira tem sido capaz de desempenhar o papel que lhe coube nos diversos momentos da História nacional e tem sido invariavelmente um instrumento a serviço do Brasil. Invariavelmente mo Império, foi um fator decisivo para

a consolidação da Independência e para a afirmação da soberania sobre o território que nos foi legado; na Primeira República, traçou o mapa do Brasil tal como o conhecemos e, atualmente, está ela decisivamente engajada no processo nacional de desenvolvimento econômico e social, cuja conseqüência externa é, sem dúvida, proporcionar uma maior e mais concreta cooperação com os países irmãos do Continente e o estreitamento dos làços com os países amigos de todo o mundo.

Essas tarefas históricas se têm encadeado, correspondendo aos imperativos e às oportunidades da evolução da nacionalidade brasileira. À medida que o país se transforma e se engrandece surgem novas oportunidades e imperativos e é assim que não pode cessar o esforço de revisão dos objetivos da nossa diplomacia.

Diretrizes da Política Exterior

Para o período que passaremos a viver, o Senhor Presidente da República definiu claramente quais são as diretrizes básicas da política exterior do Brasil: "senso de responsabilidade como grande Nação adulta cuja voz já se faz ouvir, espírito de colaboração, aberto aos problemas ecumênicos da paz e do progresso, convicção do dever de participar também da ajuda mútua entre os povos, crença na solidariedade continental que se alicerça no imperativo geográfico e na história de vários séculos — devem inspirar-lhe o roteiro a seguir, neste mundo intranqüilo e perplexo de nossos dias".

País característico e dinâmico, inserido num mundo que não perdoará quantos forem estáticos e anódinos, o Brasil caminha de um passado onde ainda era possível o conformismo das projeções pessimistas e a resignação dos destinos inespecíficos para um futuro, já imediato, onde a autoconfiança será o reflexo e não a base de expressões inequívocas de grandeza nacional.

Está em curso, sem dúvida, uma maior cooperação entre países altamente desenvolvidos, mas, ao lado disso, os próprios países desenvolvidos são levados a aproximar-se dos países em desenvolvimento e estes adquirem, cada dia que passa, maior operatividade e eficiência. Estes são os marcos da nova ordem internacional e já é praticamente impossível contrarrestar a tendência para uma diversidade, na qual, ao lado dos atuais centros de poder, consolida-se o fortalecimento e uma maior autonomia de outros pólos. Nesse quadro global, a primeira responsabilidade da diplomacia brasileira é obviamente para com a América Latina. Aí será nossa tarefa a de explicitar as coincidências essenciais que existem entre os países da Região, acima e além dos desacordos ocasionais e dos traumatismos episódicos. Essa responsabilidade particular, com os deveres que lhe são próprios, devem ampliar-se a todo o Continente. O Brasil pode e deve ser um dos catalisadores do diálogo que já está em curso, do qual deverá resultar, cada vez mais nítida, uma genuína expressão da vontade latino-americana que se projete no Continente e no Mundo.

Essa precípua responsabilidade regional e continental não significa, porém, que sejam menos relevantes as tarefas que aguardam a nossa diplomacia em esferas mais amplas ou mais distantes geograficamente. Elevado nas dimensões de sua economia e do seu poder nacional, projetando-se num mundo onde se estreita a convivência entre as nações, não será possível ao Brasil alhear-se do que ocorre em outras áreas, do que emerge como novas urgências na África, no Oriente Próximo, na Ásia e na Europa.

De todos os modos, cabe-nos ter sempre em mente as possibilidades concretas e reais do Brasil, não confiando apenas no automatismo de um crescimento inevitável, mas sim, trabalhando tenazmente o presente e projetando com fé o futuro, "olhos postos no bem-estar crescente do povo brasileiro e na maior grandeza da Pátria", como disse o Presidente Geisel. Por isso, a política exterior do Governo brasileiro, hoje assinalada,

repito, pela busca do desenvolvimento econômico e social — em que deve repousar a segurança do país — se caracteriza pelo claríssimo propósito de abrir para o Brasil as opções do futuro e de preservá-las integralmente.

Devo dizer, ao concluir, que não há tarefa mais relevante do que a de participar com total engajamento desta mobilização criadora do IV Governo da Revolução. Acredito que o Ministério das Relações Exteriores deva ser uma peça indispensável neste esforço uníssono de construção. Desejo, por esta razão, reiterar ao Senhor Presidente da República as expressões de meu agradecimento pela honra com que me distinguiu.

Possam a confiança que deposito no Itamaraty e a fé que tenho no destino do Brasil ser o fundamento de minha promessa renovada de bem servir.

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